Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 160

Verme (Parahumanos #1)

“Como ele se saiu?” perguntou Tattletale.

“Como um Mercedes com uma marcha invisível e grudenta,” respondeu Regent.

“Quer explicar?”

Victor se alongou e disse: “Tudo funciona bem, em ótima condição, mas o poder dele não funciona tão bem com ele como uma marionete. Não consigo saber o que estou emprestando ou de quem estou roubando. Acho que precisaria da cooperação dele—”

Nosso captivo sorriu de leve.

-“E acho que ele não está disposto a dar essa cooperação,” completou Regent.

“Então a questão é se queremos gastar tempo tentando convencê-lo ou seguir por um caminho indireto,” disse Grue.

“Skitter vai precisar sair em alguns minutos, então vamos ver do que vocês são capazes no aqui e agora,” falou.

“Claro.” Grue estendeu a mão e mergulhou Victor na escuridão. Um segundo depois, disse: “Estou percebendo alguma coisa. Alguém aqui fala outro idioma? Sug puppene til horemammaen din?”

“Não,” respondeu Tattletale. “Você está captando isso de Victor.”

“Não dá pra usar isso direito. Agora, como eu faço para mudar o que estou roubando?”

Tattletale deu de ombros. “Pode ser que você só esteja captando as coisas superficiais. Aqui, Regent, tente alguns movimentos de artes marciais.”

“Tipo quais? Eu não conheço essas coisas.”

“Victor conhece. Você luta usando a memória muscular dos seus fantoches, certo? Tente se movimentar, ver o que encaixa, e o Grue vai te avisar se estamos conseguindo alguma coisa.”

Houve uma pausa. A mão de Victor brilhou brevemente fora da nuvem de escuridão enquanto ele mudava de posição.

Grue deu uma ajeitada nos ombros. “Sim. Tem uma arte marcial aí em algum lugar. Tô captando alguma coisa, mas tá devagar.”

Tattletale sorriu. “Capte tudo o que puder. Vamos ver no que dá.”

“É meio deprê,” disse Grue, sentando-se numa abaulada, “sempre me orgulhei de cuidar do meu corpo, treinar, essas coisas. Isso parece trapaça. Pular o esforço difícil.”

“Você disse que nunca teve tempo ou interesse de dedicar-se a uma arte marcial,” pontuou Tattletale.

“Não tive. Mas não quer dizer que não pudesse no futuro. Daqui alguns anos, quando tudo estiver mais calmo, posso me imaginar fazendo isso, conquistando faixas e aprendendo a lutar.”

“Se você não quer fazer isso,” disse Regent, “posso passar meu dia fazendo outra coisa.”

Grue balançou a cabeça. “Não. Está tudo bem. Não faz exatamente sentido, mas conseguirei ajudar mais vocês se lutar melhor, se for mais versátil. E estou pegando outro idioma, de novo. Latim, acho. Que tal colocar ele para fazer os movimentos de novo?”

Regent suspirou.

Tattletale franziu a testa. “Ele está tentando te levar para fora do rumo. Usando a cabeça para trazer coisas à tona. Ouça, vou passar a noite com Skitter, e depois vou falar com Coil, ver se ele tem alguém que possa dopar o Victor e mexer com as funções mentais dele sem incapacitar, ok?”

Droga, como as que Coil usa na Dinah, pensei. E isso daria uma chance para Tattletale e eu conversarmos sobre o golpe que Coil colocou na minha cabeça.

Eu precisava me perguntar por quê? Eu provavelmente fazia o melhor entre seus subordinados. Por que ele tinha tanta dificuldade em simplesmente deixar a Dinah ir, talvez tomar contramedidas para garantir que ela não o traísse, e deixar as coisas como estavam?

Eu não seria uma ameaça para ele se ele não estivesse fazendo algo moralmente reprovável.

Deixamos Regent e Grue ao seu trabalho e saímos do corredor com as celas, entrando na passarela de metal que dava vista para o andar inferior. Eu via os Viajantes na porta da cova que mantinha Noelle presa, bem como os soldados seguindo seus afazeres.

O que me parecia estranho, ao pensar nisso.

“O que é essa quantidade de soldados?” perguntei. “Ele tem, o quê, cinquenta ou sessenta aqui?”

“Um pouco menos, mas alguns estão em outros lugares.”

“Por quê? Eu entendo que ele os usava antes, para lutar contra a Empire Eighty-Eight, mas para que os usa agora? Ele não mandou contra o Endbringer, não os usou contra os Nove. Entendo que talvez tenha enfrentado os Comerciantes e os Escolhidos quando estavam em alta, impediu que eles ganhassem força demais, mas parece caro gastar com soldados que ele não pretende usar.”

“Bem,” disse Tattletale, encostando na grade. “Primeiro, mantê-los empregados aqui significa que eles não vão ser contratados por outra pessoa.”

“Certo.”

“E acho que eles fazem parte do plano dele. Como contingência ou um aspecto maior dele.”

Assenti. Eu teria perguntado qual era esse plano, mas não queria dizer nada que soasse suspeito se alguém ouvisse de raspa. Especialmente enquanto estávamos no território do Coil.

Tattletale não parecia se preocupar com isso. Ela se inclinou mais perto e sussurrou: “Você tem duas tarefas seguidas. Isso quer dizer que tem algumas coisas para fazer. Primeiro, se temos um informante infiltrado no nosso grupo e nossas comunicações estão comprometidas, isso significanós precisamos de um infiltrado no grupo do Coil. Alguém que possa nos informar sobre os movimentos dele que ele queira esconder de nós.”

“O Balístico?” perguntei.

“Mm,” ela respondeu baixinho. “Investigue-o. Seja cuidadoso, mas tente entender o quão próximo ele é dos outros Viajantes. Como a Cherish falou, o Trickster não é tão unido com a equipe dele. Veja o quão pouco ligado o Balístico é com o chefe, e talvez possamos fazer algum avanço.”

“Ok.”

“Isso não vai ser fácil, porque tenho a impressão de que ele não gosta de você, e ficou chateado por você ter pisado no calo dele aqui.”

Fiz uma cara de dúvida.

“A segunda coisa? Sobre a possível tentativa de assassinato?” ela perguntou.

“Estou um pouco preocupada com isso.”

“Ele só decidiu isso hoje de manhã, então qualquer plano que ele tenha vai acontecer mais tarde.”

“E você não sabe como ele vai abordar a situação ou o que vai fazer?”

Ela balançou a cabeça. “Tudo o que sei é que o Coil pretende que isso aconteça hoje à noite, provavelmente relacionado com o seu trabalho com o prefeito.”

“E você tem certeza disso?”

“É uma coisa que se encaixa perfeitamente se considerarmos um fato: ele quer te matar. Por exemplo, ele tem mais motivos para enviar a Imp do que o Trickster.”

“Como assim?”

“Já contei isso pra Imp, mas o Coil está preocupado com o estado emocional do Grue e o que isso significa para a nossa equipe como um todo.”

Assenti. Ou seja, ele quer tirar a Imp da jogada pra ver como o Grue se sai.

“Por isso estamos mantendo isso em sigilo. Ainda não sei exatamente quando faremos isso, mas conversei com a Impacto e com o Regent, e dei uma insinuação sobre o assunto com a Bitch, e talvez esteja pensando em fazer você o líder da nossa equipe. Ao menos por um tempo.”

Virei a cabeça para ela surpresa.

“Faz mais sentido. Você tem o melhor controle de quem está envolvido e de como usar nossas habilidades. Você pensa de forma tática,” murmurou.

“Por que não você?” perguntei. “Você tem prioridade, mais experiência, consegue aparentemente acompanhar a Imp, e consegue identificar as fraquezas do inimigo.”

“Não tenho certeza se tenho mais experiência,” admitiu Tattletale, “Ou pelo menos, minha experiência não vale muito. Roubar de empresas de software e cassinos não se compara a enfrentar de igual para igual um mannequin.”

“Meus outros pontos ainda valem.”

“Só porque vamos te colocar à frente não significa que eu não possa lidar com essas coisas. Se você quiser delegar alguma coisa pra mim a qualquer momento, tudo bem. É uma questão de quem recorrer quando precisar de uma decisão rápida.”

“Eu não sou boa nessas horas. Só quando posso planejar, pensar em tudo que está em jogo.”

“Não acho que você se dê muito crédito. Como já disse antes, vou repetir, você é boa em improvisar.”

“Com apenas eu, talvez. Só minhas habilidades. Não tenho certeza se consigo fazer isso se também estiver preocupada com os quatro de vocês.”

“Vamos ver no campo de batalha. A menos que você ache que o Grue consiga se segurar numa situação de alta pressão?”

Fiz uma expressão de dúvida atrás da máscara e balancei a cabeça.

“Claro, discutir isso não significa nada se você acabar sendo morto. Não faça isso.”

“Simples assim? Não morrer?”

“Você vai entrar numa situação complicada com o membro mais sem moral e o mais versátil do grupo deles. Fique atenta a tudo, tente ser imprevisível para que eles não te peguem numa armadilha.”

Só precisava descobrir como fazer isso com um trabalho tão straightforward.

“O Balístico está vindo,” disse Tattletale. Olhei e vi o Balístico subindo a escada na extremidade da passarela. Demoraria um ou três minutos para chegar até nós.

“Alguma dica final antes de eu ficar sozinho com ele?”

“Ele está nervoso. O Coil enredou os Viajantes prometendo ajudá-los com a Noelle, mas há duas complicações nisso que talvez possamos usar. Primeiro, não sei se o Coil realmente pretende oferecer alguma solução que encontre. Segundo, o Balístico se importa menos com isso do que qualquer um. Ou talvez seja melhor dizer que ele quase não quer ajudar nisso porque o Trickster quer demais.”

“Parece menos uma questão de atrito no grupo e mais uma questão de inimizade aberta.”

“Acho que eles já foram amigos há algum tempo, e agora estão distantes.”

Bem, não era como se eu não estivesse familiarizado com essa ideia.

“E,” ela falou em voz baixa, “eu sei que o negócio da Noelle não é a única crise que eles estão tentando resolver. A atenção na Noelle é uma dor de cabeça para o Balístico.”

“Vago. E não posso falar nada sobre isso sem admitir que a informação veio de você.”

“Sim,” ela respondeu, depois se endireitou, virando-se em direção ao Balístico.

“Aquele aglomerado parecia uma conspiração em ação,” comentou ele. Parecia ter baseado seu traje em heróis de uma época diferente, com algumas concessões para combinar com o esquema de cores do time; um traje preto com padrões vermelhos na roupa, bastante protegido por painéis de armadura e acolchoados, fazendo um cara grande parecer ainda maior. A máscara dele era quadrada, com buracos só para os olhos. Cintos e bolsas estavam presos pelo corpo todo.

“Conspiração? Nós?” Tattletale sorriu.

“Estavam cochichando alguma coisa.”

“Rapazes,” ela piscou.

“Hm,” ele não aparentava estar impressionado.

“Na verdade, estávamos falando sobre rapazes. Sobre o Grue, especificamente, e talvez substituí-lo como líder.”

“Ei,” eu disse, antes de entenderpor quê ela tinha dito aquilo. Ela queria ganhar um pouco de confiança contando um segredo.

Ela deu de ombros. “No final das contas, eles vão descobrir. Vamos confiar que o Balístico não vai correr contar para o Coil.”

Ele cruzou os braços. “Me colocando numa saia-justa?”

“Claro. Você consegue lidar com isso,” ela disse, me dando um tapinha no ombro. “Vou cuidar dessas drogas pro Victor. Boa sorte pra vocês dois.”

“Me diga,” disse o Balístico, enquanto Tattletale se afastava, “você já passou daquele ponto em que se sente mal por estar perto dela?”

“Sim,” eu respondi. “Com o tempo, passa.”

Não tinha acrescentado que o desconforto que ele sentia era, em grande parte, por causa da quantidade de segredos que tentava esconder dela. Quase nem precisava dizer.

“Você ainda insiste em vir junto?” ele perguntou. “Sabe que posso lidar com isso sozinho.”

“Não duvido. Mas estou interessado em ver esse lugar.”

Por quê?

“Tenho meu próprio território. Talvez possa pegar umas ideias. E quero ver como as pessoas estão lidando em outros bairros.”

“Eu perguntaria ‘por quê’ de novo, mas não tenho certeza se obteria uma resposta.”

“Se essa cidade não for condenada, vocês vão ter gente vindo pro seu bairro. Mesmo que a infraestrutura da cidade volte a funcionar, essas pessoas vão pressionar por certas coisas.”

“Você age como um senhor medieval administrando seus servos, e eu vejo mais como um cão de guarda.”

Apontando para a saída, ele suspirou. Começamos a deixar a base.

“Você realmente quer se limitar a ser um cão de guarda?”

“Quando ganho esse tanto de dinheiro? Quando até os caras no topo desta cidade ficariam assustados comigo? Claro.” Ele abriu a porta para mim.

“E é só isso que importa? Dinheiro e ser temido?”

“Sou uma metralhadora viva e o ambiente ao meu redor é só pilhas de munições. O que você espera? Você não acha que você também é assustador?”

“Acho que você pode ter dinheiro e poder, ser temível quando necessário, mas ainda pode fazer a diferença ao mesmo tempo.”

“Não parece valer a pena, se matar pra deixar algumas pessoas mais felizes e confortáveis antes que o mundo acabe.”

“Você é um dos que ficam ligados nisso, hein?”

“O mundo vai acabar. Como você consegue ignorar isso?”

“Pode não.”

“Certo,” ele respondeu, claramente dando de beber na minha fala.

Isso não tava funcionando. Tattletale tinha dito que o Balístico tava bravo, mas eu interpretei aquilo como uma raiva do tipo que a Bitch guardava. Seja lá o que estivesse acontecendo com a Noelle e a dinâmica do grupo que deixou a Sundancer tão infeliz, isso tinha feito o Balístico ficar bravo com o mundo, irritado com as circunstâncias. Um tipo diferente de raiva, na verdade: ele realmente não se importava com nada nem com ninguém.

Como eu ia conseguir passar pra ele se fosse esse o caso?

Decidi confrontar isso.

“Ok, então suas únicas prioridades são dinheiro e poder? Então por que está tão chateado que eu estou vindo junto? O que isso importa?”

“É minha preocupação, meu território, e sou capaz de lidar com ela sozinho. É insultante que o Coil ache que eu precisaria de alguma ajuda, e é grossa de sua parte querer se voluntariar sem falar comigo antes.”

“Certo,” respondi. “Hipoteticamente, só supondo pelo que você disse antes, por que eu deveria ligar pra isso? O mundo vai acabar daqui a alguns anos de qualquer jeito. O que tem de importante em eu cair na sua ausência?”

“Isso é diferente,” ele disse, com irritação na voz.

“Por quê? Porque você é quem está sendo prejudicado?”

“Porque somos praticamente colegas de trabalho. Se vamos lutar ao lado um do outro, não podemos ficar preocupados com esse tipo de coisa.”

“Primeiro de tudo? Tenho uma relação de trabalho mais próxima com as pessoas do meu território do que com qualquer um dos Viajantes. Quando e se você conseguir mais gente no seu território, pode ser que descubra que é igual pra você também. Então, não acho que essa história de colegas seja tão verdadeira.”

“Você está comparando maçãs e laranjas. Heróis e civis.”

“Tudo bem.” Ele deixou uma brecha pra mim atacar. “Então, vou apontar para seus outros ‘colegas’. Os outros Viajantes. Está claro que há atritos. Tem ressentimento. A Cherish comentou isso. Então acho que você também não acredita muito nessa história de colegas.”

“De novo, isso é diferente.”

“Você diz isso com frequência. Talvez esse princípio que você vive não seja tão forte se não agüentar os argumentos mais básicos. A não ser que queira explicarpor quê isso é diferente?”

“Você está me interrogando pra saber mais sobre minha equipe.”

“Tenho curiosidade sobre o que está acontecendo aí, sim. Mas também estou tentando te entender. Como você disse, somos colegas.”

“Não estava discutindo justo isso agora?”

“Decida se acredita nisso de verdade, me avise e mudarei meu argumento de acordo,” respondi.

Ele suspirou.

“Não quero ser seu inimigo,” eu disse. “Sério. Mas lidei com umas personalidades interessantes, como a Bitch, o Regent e o Imp há um tempo, e sei que não vou conseguir me comunicar com você até entender de onde você vem. Então, estou disposto a ir além para te entenderagora para poder te compreender no futuro…”

Eu parei por um instante, mas continuei com um olho nele, para ver se havia algum indício de que ele tinha ciência dos planos do Coil para acabar com meu futuro. Não tinha nada. Não via o rosto dele, mas nada mudou na postura, na passada ou na linguagem corporal como um todo.

“Você não vai parar de cavar e continuar me incomodando, hein?” ele perguntou.

Eu estava pensando nele como bem parecido com a Bitch em vários aspectos. Era mais inteligente, sim, e as armas que usava na discussão eram menos sobre ameaçar com dano iminente e mais, o quê? Se separar ainda mais de mim? Romper laços, me transformar num inimigo na cabeça dele e dificultar o trato no futuro?

Isso explicaria o racha entre ele e os outros membros do grupo.

“Se você pedir, eu paro. Mas…” tomei a decisão na hora, como faria com a Bitch se tivesse certeza que ela não ia me atacar. “Acho que ambos concordaríamos que você admitiria que eu tenho razão, se fizesse isso.”

“Isso é sujo.”

“Claro.”

“Então, o que você quer saber, afinal? Quer que eu revele meus segredos mais sombrios?”

“Vou ficar em entender porque vocês todos estão tão bravos com o Trickster, por quevocê especificamente está irritada com ele.”

“Não. Não posso te dizer.”

“Não pode ou não quer?”

“Não quer. Fizemos um acordo, e esse acordo faz com que tenhamos guardado certas coisas do Coil, até. Não vou te contar.”

“Não preciso saber detalhes específicos.”

“Você também não precisa saber os detalhes gerais.”

“Na verdade, talvezvocê precise me contar. Um de seus companheiros disse que ele estava muito sozinho, e que ele é mais próximo dos outros do que de você. Talvez você também esteja sozinho, sem alguém pra desabafar?”

“Sou homem. Não costumamos compartilhar emoções. Você está tentando imitar a Tattletale? Por que está tão interessado em detalhes? Não é só curiosidade ou vontade de saber dos seus colegas.”

Porque tudo depende da minha capacidade de te convencer a virar contra o Coil.

Sem uma boa resposta, fiquei em silêncio. Continuamos andando pelas ruas em direção ao lago causado pelo Leviatã na cidade, nossos passos fazendo barulho na água rasa.

“Ele nos tirou tudo,” disse o Balístico, quebrando o silêncio.

“Trickster?”

“Trickster. Quando tudo começou a desmoronar, ele assumiu as decisões. Decisões ruins. E agora, o grupo é tudo o que nos resta. Sem amigos, sem família, sem casa pra voltar, sem objetivos além de consertar as besteiras do Trickster.”

Pensei em como tinha sido revelado que a Sundancer relutava em usar seus poderes por causa do dano que tinha causado no passado. Mortes civis? Incluíam suas próprias famílias? Noelle foi incluída nisso?

Talvez isso explicasse a relutância deles em usar seus poderes ao máximo e por que insistiam tanto em manter a Noelle presa quando estávamos contra os Nove.

Ele continuou: “Os outros podem até odiar o Trickster, mas ainda o respeitam. Ou não o respeitam, mas também não o odeiam. Provavelmente mais o primeiro do que o segundo. Mas eu não tenho nenhum amor pelo cara, nem respeito, e parece que estou sozinho nessa.”

“Então, o que faz pensar agora?”

“Voltamos ao ponto de partida. Já expliquei: dinheiro, ser temido, respeito e viver bem como um cão de guarda durão.”

“Tudo isso sobre odiá-lo, culpar ele por ter arruinado sua vida, e você não quer se vingar dele?” perguntei, na maior casualidade possível.

“Não. Estou no grupo por uma razão. Apoio a merda toda. Não vou virar as costas pra ele. Concordei com isso tudo com o Coil porque achei que fosse uma forma de reaver um pouco do que perdemos, talvez. Mas tudo que vejo é meus colegas de equipe ficando sonhadores de esperança enquanto o Coil nos enche de promessas vazias. Diz que a Tattletale vai encontrar uma resposta, ou que ele vai fazer um pedido a alguns grandes cientistas de estudos de pará-humanos. E, claro, não há respostas.”

“Mas poderia haver.”

“Não. Por que ele daria pra gente o que queremos se isso significar perder os serviços dele? Mas não me importo mais. Fiz um acordo com o Coil e vou mantê-lo até ter um bom motivo pra não fazê-lo. Do meu jeito, fodam-se minha equipe, fodam-se o Coil, mas não vale a pena confrontar ninguém se isso significar gastar os dois anos restantes da minha vida tentando conseguir outro trabalho tão confortável.”

“Parece meio claustrofóbico impor essas limitações pra si mesmo, deixar que as coisas com sua equipe fiquem de lado, ficar todo sozinho?”

“Não vou ficar sozinho. Acho que tenho dinheiro suficiente e respeito pra conseguir algumas fãs. Isso serve pelos próximos anos. A não ser que você ache que vale a pena um relacionamento duradouro, mesmo sem futuro?”

Suspirei. Não valia a pena continuar essa conversa. Percebi que o Balístico não ia ceder, e eu não tinha uma razão boa pra convencê-lo a se juntar a nós.

Vimos várias quadras da cidade em silêncio. Quando chegamos ao lago criado pelo Leviatã no centro da cidade, começamos a caminhar para o norte, em direção a Dolltown.

“Como vamos fazer? Estratégia de ataque?” ele perguntou.

“Tem certeza que vai me deixar fazer o primeiro movimento?”

“E levar todo o crédito?” a voz dele endureceu.

“Eu te deixo levar metade do crédito se eu conseguir. Você leva todo o crédito se eu falhar.”

“Nem pensar.”

“O quê?”

“Entendo o que você está planejando. Quer fazer os Viajantes parecerem ruins. Quer uma fatia maior do bolo no futuro. Mais respeito, mais poder, e faz isso se envolvendo em tudo, participando ativamente. Precisa estar na frente.”

“Isso é loucura.”

“Pois é. Então, por que você está exagerando na sua área?”

“Estou fazendo meu trabalho, cuidando do meu povo.”

“Não. É mais do que isso. Tem alguma coisa que te faz trabalhar assim, com tanta força. Você quer nos substituir.”

Ele parou de andar. Eu também, virei para encarar.

Ele riu levemente, “Eu nãote culpo por isso. Quer dizer, é bem sujo, já que estamos trabalhando juntos, mas entendo que você quer estar no topo.”

“Nósestamos trabalhando juntos.”

“Posso ser mais alto e estar em melhor forma do que a média, mas não souburro. Acho que percebi a oportunidade do que você tentou fazer, tentar criar uma divisão na nossa equipe? Testando se tenho ressentimentos com os outros?”

Droga. Esse tipo de coisa era coisa da Tattletale, não minha. Agora ia desandar rápido, e eu conseguia imaginar como isso poderia explodir na minha cara.

Engoli em seco, e expliquei: “Eu te tava testando porque parecia que vocêsim tinha ressentimentos com os outros membros da equipe, e quis te dar uma chance de falar sobre isso.”

“Ah, então a garota estranha que gosta de inseto é, no fundo, um amorzinho,” ele ironizou. “Sem segundas intenções.”

“Seja lá o que for,” eu sorri, “deixa pra lá.”

“Então foda-se,” disse ele. “Não vou te dar prioridade nessa aqui. Quando eu vir ela de novo, vou tirar ela de ação e deixar bem claro que fui eu quem fiz isso. Você consegue o que queria, que era ver o território, e eu fico com o que quero, que é terminar o meu território pra relaxar.”

Esse não era o modo como eu queria que as coisas acontecessem. Queria respirar fundo e ficar puto, mas ao invés disso, mandei uma ordem para meus insetos e respirei fundo.

“Ok,” falei.

“Ué?”

“Mas acho melhor ficar fora do alcance de qualquer bala. Eu tenho a impressão de que te ofendi, então talvez seja melhor a gente dar um tempo, evitar uma treta?”

“Não vou colocar minha estratégia com o Coil em risco por causa disso. Mas talvez seja melhor você ficar de lado.”

Assenti, e me virei pra sair.

Então, nenhum infiltrado entre os Viajantes.

Ainda podia esperar que algo acontecesse aqui.

Usando meus insetos, monitorei os movimentos da Parian dentro de Dolltown. Ela se mexia rápido, acompanhada de um pequeno grupo de pessoas. Muitos estavam cobertos de pano, deixando-me a dúvida se eram pessoas de verdade ou algo que ela fez com suas criações.

Coordenei as direções com meus insetos, orientando-a para longe do Balístico. Inicialmente, ela não deu atenção, mas isso mudou quando ele disparou seu primeiro ataque, causando um estrondo ensurdecedor. Pelo som, ele havia feito algo para lançar um carro em direção a um prédio. Um momento depois, fez de novo. Corri mais rápido. Poderia chamar Atlas, mas não queria ser visto no ar.

Dolltown era feia. Sofreu bastante com os ataques dos Nove e a luta entre eles e o exército do Hookwolf. Havia cicatrizes nos prédios onde Hookwolf havia atacado, buracos e marcas na parede onde a Purity disparou seus feixes. A Menja tinha causado danos aqui e ali, com marcas de mãos em partes da arquitetura onde seus punhos de metal haviam roído pedra e metal.

Empurrei a porta de uma edificação destruída. Parian me encarou. Sua máscara tinha uma rachadura, e havia sangue manchando sua roupa desbotada. Ela estava cercada por meia dúzia de seus remanescentes, todos usando máscaras e roupas estranhas. Uma boneca em tamanho real, um homem envolto em pano até parecer uma múmia, uma garotinha de roupa justa de flanela com buracos nos olhos—um azul e um verde.

Parian tinha capes trabalhando para ela? Ou—

Não.

São as pessoas que a Bonesaw fez cirurgia. As que ela alterou pra parecerem membros dos Nove. Estavam com as faces e corpos cobertos pelos tecidos que a Bonesaw tinha dado a eles.

“O que você quer?” perguntou Parian.

“Negociar,” eu disse.

“Seu amigo não parece muito interessado em negociar, pelo que dá pra ver,” ela disse. Ela se assustou com outro barulho de colisão próximo.

“Arrisquei aqui, avisando você sobre ele. Ele queria te machucar, fazer de você um exemplo. Eu não funciono assim.”

“Não acho que possa confiar em você nisso.”

“Vai ter que confiar. Porque eu fui por trás do banco do Balístico, estou contando que você me ouça, porque se eu falhar aqui, vai ferrar tudo com essa aliança que minha equipe tem com os Viajantes.” E com o Coil.

Ela olhou ao redor. Eu senti alguém se aproximando. Uma das pessoas dela, vindo pelas costas, sem arma — uma busca rápida com meus insetos revelou isso — e mais do mesmo tecido das outras residentes de Dolltown. Ignorei o possível atacante. Eu podia aguentar um ataque com uma faca. Só precisaria ficar atento por se eles tentarem me derrubar com um taco.

“Sei que tem alguém tentando se aproximar para me emboscar,” eu disse. “Podemos apenas conversar, sem alguém tentar me machucar?”

“Sobre o que quer conversar então?”

“Você foi pega numa roubada. Os Nove te pegaram, como fizeram com algumas pessoas que me importam. Pessoas que amo. Isso não é justo. Então, pensei, tenho muito dinheiro. Tenho recursos. Sei que não é muito, não é suficiente, mas talvez pudéssemos conseguir médicos para seus amigos e familiares. Consertar o que fizeram com eles.”

“E o que você quer em troca?”

“Entrar para minha equipe,” eu disse. “Eu—”

“Não.”

Escuta,” eu sussurrei, “É a melhor maneira de garantir a segurança de todos aqui. Arranca o Balístico de cima de vocês. Mesmo que você evite ele hoje, ele vai destruí-la metade de Dolltown, e amanhã volta pra destruir a outra metade. O restante fica como está, vocês mantêm as liberdades, só que nós vamos fornecer tudo que precisarem. Não só arroz e água limpa, mas comida de verdade. Cuidados médicos. Abrigos decentes. Tudo o que vocês precisarem, basta seguir a nossa orientação, e podemos consertar muitas das coisas que deram errado aqui.”

Quem estava atrás de mim se aproximou mais. Eu olhei para ela, me preparando, quando ela avançou no mesmo instante.

Três hastes de metal saíram entre os dedos dela, como socoes improvisadas de bronze. Quando ela as enfiou no meu ombro, atravessaram minha roupa e perfuraram até o osso, como facas quentes numa manteiga macia. Ela varreu meus pés de baixo e me fez cair no chão.

“A senhorita disse que não,” disse Flechette, com uma mão me segurando, e com a outra erguida para me atacar de novo.

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