Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 138

Verme (Parahumanos #1)

“Com o osso do ombro conectado ao,” ela fez uma pausa, “Quadril…”

Bonesaw cantarolava para si mesma enquanto puxava um bisturi da manga, investigava-o e depois o colocava na bancada.

“E o quadril conectado ao… coluna vertebral.”

Ela puxou uma pinça debaixo do vestido, mais duas pinças foram retiradas, juntando-se às primeiras.

“E a coluna vertebral conectada ao… joelho.”

Ela levantou duas pinças de uma gaveta escondida, e mais duas, completando o conjunto.

“E o joelho conectado ao… braço.”

Eu estava assustado. Admito isso. Mal conseguia pensar direito, não conseguia me mexer, e o que quer que ela tivesse me dado de alguma forma me deixou incapaz de usar meus poderes. Eles estavam . Não era como o que Panacea tinha feito; ela não os tinha desligado completamente. Eu podia sentir o que meus insetos faziam, e talvez pudesse dar comandos básicos a eles, mas nada nem remotamente delicado ou complicado.

“E o pescoço conectado ao—” Ela balançou a cabeça de um lado a outro enquanto terminava, “Osso da cabeça.”

Podia ver a porta do refrigerador meio visível no canto do meu campo de visão, mas não conseguia virar a cabeça para olhar melhor. Brian podia nos ver de onde ele estava pendurado.

Eu não queria desistir sem luta. Não podia dar comandos específicos aos meus insetos, mas se eu tentasse, talvez pudesse dar alguns. Quem sabe, quem sabe, eu podia confiar no meu subconsciente para guiá-los, mesmo que minha mente consciente não estivesse à altura.

Controlava minha respiração, inspire, expire, e dei a ordem.

Ataquem!

Se os comandos fossem como palavras na minha cabeça, esse era um grito. Não havia controle, orientações ou direção. Eu não tinha facilidade. Ainda assim, todos os insetos ao alcance, na faixa de cinco ou mais quarteirões em todas as direções, começaram a convergir para nossa localização, direcionando-se para Bonesaw.

Ela percebeu quase imediatamente, puxando a lata de spray que tinha usado na primeira Nuve que tinha enfrentado. Uma abelha conseguiu picá-la, e com meu poder tão limitado, não consegui impedir que ela contrair a corpo de uma forma que injetasse seu veneno nela. Eu não teria feito se pudesse.

O resto dos insetos morreu ao contato com o spray, seus corpos parando de funcionar.

Exceto que minha ordem era uma orientação contínua, assim como minha convocação dos insetos comigo quando desmaiei lutando contra Bakuda. Ela funcionava por si só, sem minha direção. Era estranho acompanhar seus movimentos, ver quanto de iniciativa eles tomavam sem minha mente consciente guiá-los. Eles se espalharam, passaram por obstáculos, se organizaram em filas e tentaram atacar por trás, enquanto ela pulverizava os insetos à sua frente. Alguns insetos voadores até jogavam aranhas em Bonesaw.

“Isso é irritante,” ouvi Bonesaw comentar. Não consegui vê-la no meu campo, que era principalmente limitado ao chão, à máscara do Imp e, se olhasse para a minha esquerda ao máximo, ao refrigerador onde estava Brian. Poucos insetos passavam pelo spray, e até as gotículas que tinham se acumulado na pele, cabelo e roupa de Bonesaw eram suficientes para matá-los ou incapacitar ao toque.

Não consegui responder à sua fala. Concentrei-me na respiração, captando cada detalhe possível. Meus olhos ainda podiam se mover, minhas pontas dos dedos podiam tremer, mas nada mais.

“Só para você saber, me tornei imunada a esses venenos chatos e alérgenos,” ela disse. “E consigo desligar a dor como se fosse um interruptor. Não quero fazer isso permanentemente, mas facilita bastante aqui.”

Então, eu nem mesmo a estava machucando. Droga.

“Ainda assim, é irritante.”

Senti meus insetos se agrupando nela enquanto ela deixava o spray de lado e mexia nas bolsas dos bolsos. Tubos de ensaio: senti o vidro longo, liso. Ela colocou algo em cada um, depois perfurou a lata de spray. A fumaça que saiu matou a maior parte dos insetos na área. Não consegui acompanhar o que ela fez com a lata e os tubos.

“É interessante,” ela falou. Senti mãos pequenas sobre mim, e ela me levantou de modo que eu ficasse olhando para o teto, para ela. Nuvens de vapor parecido com fumaça estavam subindo ao seu redor. Do que eram os tubos? Tinha o mesmo efeito nos meus insetos que o spray tinha. Ela tinha criado uma espécie de barreira gasosa.

“Veja bem, há uma parte do cérebro que os estudiosos de parahumanos chamam de Corona Pollentia, não confundir com a Corona Radiata. É uma parte do cérebro que difere naqueles com poderes, e é a responsável por gerenciar os poderes, quando eles podem ser controlados. Mais especificamente, há essa parte da Corona chamada Gemma, que controla o uso ativo do poder, do mesmo jeito que temos áreas do cérebro que coordenam e movem as mãos.”

Ela inclinou minha cabeça para trás e passou as mãos pelas bordas da máscara, tentando achar o ponto onde pudesse tirá-la. “Sou realmente bom em descobrir onde estão a Corona e a Gemma. Posso até adivinhar na maioria das vezes, se souber quais poderes a pessoa tem. E consigo abrir ela bem, fazer com que os poderes não possam ser desligados, ou desativá-la temporariamente, ou modificá-la. A poeira que espirraram no seu rosto? Tem os mesmos cegantes que coloquei nas varetas que usei na sua turma. Destroi a Gemma, mas mantém seus poderes intactos. Não dá pra experimentar suas habilidades se eu tiver queimado toda a sua Corona Pollentia, né? Pois é.”

Ela inclinou minha cabeça e encarou minhas goggles com os olhos desiguais. “O lance é, a Corona é grande demais pra fazer o que ela tá fazendo. Como parahumanos, nossos cérebros fazem coisas incríveis. A estrutura, os detalhes que nossa mente usa pra decidir o que funciona ou não, o potencial, até a energia que usamos, é muita coisa pra processar, e é muito pra uma coisa do tamanho de uma goiaba. Tudo isso tem que vir de algum lugar. Outra razão de você não poder simplesmente estraçalhar a Corona? Se fizer isso, seus poderes continuam funcionando por conta própria. A pessoa só não consegue controlá-los. Eles ficam instintivos, ao invés disso.”

Ela começou a procurar ao redor da máscara por uma costura, fivela ou zíper, procurando. Falou enquanto puxava a parte da máscara que encostava no meu couro cabeludo, tentando deslizar para baixo, em direção ao queixo. “Então, você consegue entender por que acho muito interessante que você ainda tenha a habilidade de controlar os insetos, mesmo com a Gemma fora de ordem.”

Desistiu de puxar a máscara, que as placas de armadura dificultavam, e o tecido não rasgava. Ela estalou os dedos, e uma das aranhas mecânicas se aproximou. Ela tirou uma dessas ferramentas na ponta da perna da aranha – uma serra circular mecânica pequena. Ela fez barulho de fresador, como uma broca de dentista, ao ligar. Começou a desmontar minha máscara, fio por fio.

“Estou dez vezes mais animada em abrir sua cabeça agora! Pode me dar uma pista sobre o passageiro. Acho que é alguma coisa que se conecta ao seu cérebro. Estava vivo até seus poderes ativarem, ajudou a formar a Corona, depois que quebrou. Já vi isso acontecer quando provoquei e gravei eventos desencadeantes, vi morrer depois. Mas tenho quase certeza que ainda há algum vestígio, ligado, colaborando conosco e acessando todas essas forças externas que você e eu nem conseguimos entender, pra fazer seu poder funcionar.”

Respire fundo, exale. Eu tinha que manter a respiração consciente. Seja lá o que ela tinha colocado no poeira, também travara a parte que cuidava das funções automáticas. Meu coração acelerado não estava sincronizado com a minha respiração, e começava a ficar tonto e desorientado. Ou talvez fosse a poeira. Ou medo.

“Mas não consegui encontrá-lo. Não está fisicamente lá, ou é tão pequeno que não consegui rastrear. Se seu ‘passageiro’ for forte o suficiente pra deixar você funcionar com a Gemma desativada, se seus poderes funcionam sem o seu comando, talvez seja mais fácil de detectá-lo.”

Ela demorou para passar pelo tecido da minha máscara, parando para limpar o material solto ao redor da ferramenta.

“Não se preocupe. Quando eu terminar de procurar, vou colocar seu cérebro de volta, depois que terminar. Aí começamos a verdadeira diversão.”

Ela puxou minha máscara.

Inspire, expire. Não quero desmaiar. Ou talvez queira? Talvez eu não quisesse estar consciente do que ia acontecer a seguir.

O bisturi dela deslizou pela testa, tão rápido e preciso que quase não doeu. Consegui vislumbrar ela desembaraçando os dedos e o bisturi dos meus cabelos longos antes que os primeiros pingos de sangue inundassem meus olhos. Ardia, e por um momento fiquei cego, até conseguir piscar o suficiente para espantar o pior. Queria piscar mais, mais rápido, mas minha resposta era lenta, no máximo. Não dava pra saber se meus lentes ajudavam ou atrapalhavam.

Me lembrou de um incidente acontecido poucos dias antes de eu sair às ruas com traje. A cabine do banheiro, o banho de suco. Tudo começou com suco de cranberry nos olhos e cabelos. Como cheguei de lá até aqui?

“Mal posso esperar para ver. É como Natal, abrir um presente! Obrigada!” Ela se abaixou e me beijou bem no centro da testa. Quando se levantou, tinha sangue escorrendo dos lábios e do queixo. Ela limpou a maior parte com as costas da mão, sem se importar.

Ela olhou para a serra circular, que começou a fazer aquele barulho agudo de ligar/desligar.

Depois parou.

“Enferrujada com pedacinhos minúsculos de seda e mais do que a armadura, além de lenta. Mas não se preocupe! Tenho uma serra maior em outro lugar. Usei ela numa cirurgia anterior. Deixe-me procurar por ela.” Ela se levantou e saiu do meu campo de visão. Meus insetos não podiam senti-la, mas eu podia perceber que ela carregava uma dessas garrafas fumegantes, enquanto os insetos morriam do outro lado do cômodo, no corredor, em uma sala próxima.

Tentei me mover, mas falhei. Minhas pontas dos dedos tremiam, eu poderia piscar se focasse nisso, e meus olhos se mexiam com facilidade.

Mas nada mais conseguia fazer. Até um comando básico como ‘encontre a Ciborgue’ estava além das minhas capacidades no momento.

Bonesaw tinha mencionado esse ‘passageiro’. Meu aliado, meu parceiro, de certa forma. Havia alguma maneira de usá-lo? Para colocar mais poder nas mãos dele?

Ajude! Eu tentei, colocando toda a força de vontade no comando possível.

Nada. Muito vago. Seja qual for a ajuda que meu ‘passageiro’ oferecia, ele não pensaria em algo que eu não pudesse imaginar. Meus insetos não respondiam.

Era o momento perfeito para alguém vir me salvar. Meus insetos pararam de ir atrás da Bonesaw porque não sabíamos onde ela estava, então eles ficaram parados, grudados nas paredes e procurando alguém que pudesse ser o alvo. Podiam bater de cara com outra pessoa. Se alguém viesse, meus insetos o veriam.

Não havia ninguém. Nenhum resgatador a caminho.

Nenhum dos meus colegas se mexia também.

Se eu tivesse o poder de usar a minha força, talvez pudesse fazer algo com as garrafas fumegantes que Bonesaw deixou. Usar fios de seda para puxá-las para longe, talvez. Mas não fiz. Meu poder estava desajeitado, agora, uma arma de força bruta, no máximo.

E, claro, eu estava tão cansado. Fisicamente, mentalmente, emocionalmente. Tão pesado nos meus ombros, com tantos fracassos que custaram tanto. Nós sossegamos, subestimamos Bonesaw. Fui pelo plano do Trickster de colocar o grupo do Hookwolf contra os Nove e assim nos dar a chance de infiltrar e resgatar o Brian, mesmo sabendo que a estratégia tinha muitas falhas e variáveis imprevisíveis. Estava tão cansado que não consegui pensar em outra coisa, tão impaciente porque o Brian estava nas mãos do inimigo.

Eu teria me conformado com um destino pior que a morte, mas como fazer isso? Como convencer a mim mesmo a desistir? Seria tão simples, num nível. A ideia de parar de se preocupar, deixar de se importar, após semanas e meses de pressão… após anos, se contarmos o bullying. Eu quero desisitir, mas uma parte maior, teimosa e burra do meu cérebro recusa-se a aceitar.

Bonesaw voltou rápido demais. “Fios, Skitter? São seus, ou sobras de antes?”

Fios? Eu nunca coloquei armadilhas de fios. Eu deveria ter, mas tinha mais focado numa missão rápida de resgate do que na preparação para uma possível luta.

Meus insetos sentiram movimento. Exceto que ninguém tinha entrado no prédio, pelo menos pelo que eu sabia. Era num corredor. Grande.

A grande boneca de pelúcia que tinha notado no corredor.

Claro. As criações da Parian tinham desinchado sem o poder dela sustentá-las, não tinham? A boneca inflada, pesada, ela devia estar aqui. Meus insetos não conseguiam detectá-la, mas ela estava aqui.

“Tomada, tomada, preciso de uma tomada. Você imaginaria que numa cozinha haveria mais delas, mas não,” murmura Bonesaw. Ela passou pela minha visão, segurando uma serra duas vezes maior que a anterior.

A boneca de pelúcia se moveu desajeitadamente. Meu enxame tinha contato intermitente com ela enquanto avançava em nossa direção, depois passava por nós, entrando num corredor.

“Vou ter que cortar um buraco no seu crânio, Skitter. Sem jeito. Ia subir pelo seu nariz, mas não consegui alcançar o topo do seu cérebro com o que tenho. Vou fazer uma janelinha. Só o suficiente pra passar minha mão.”

Ela ligou a serra, que começou a emitir aquele zumbido agudo e incessante, como unhas na lousa.

Aí ela virou na direção de Brian, que estava ali perto.

Tenho que atrasar ela.

Olhei para ela, e intencionalmente pisquei três vezes seguidas.

A serra parou.

“Quer dizer alguma coisa?”

Eu pisquei uma vez, com força.

“Um piscar para sim, dois para não?”

Pisquei duas vezes. Só pra confundir.

“Que confuso. Você não tá apenas tentando atrasar pra eu abrir seu cérebro, né?”

Pisquei duas vezes.

“Não entendo o que você quer dizer. Um piscar para sim, dois para não, ok? Agora, você tem algo importante pra falar?”

Pisquei uma vez, forte.

“Vai me mandar parar?”

Pisquei duas vezes. Ela não escutaria se eu dissesse, e aí voltaria a fazer a cirurgia. Tremei, mas nada desviei meu olhar dela.

“Me diga quando parar. Últimas palavras, ameaças, seus amigos, hum… ciência, arte—”

Pisquei uma vez.

“Arte? Sua? Minha?”

Outro piscar. Se alguma coisa fosse fazer ela falar, era a ‘arte’ dela.

“O que você quer saber. Sobre seu amigo ali? É mais pesquisa do que outra coisa. Ou talvez sobre você?”

Pisquei. A boneca de pelúcia estava bem próxima.

“Arte e você, hein. Quer saber o que eu vou fazer depois de terminar minha investigação?”

Por quê não? Saber deve ser melhor do que ficar na dúvida. Um piscar.

“Vou fazer tudo. Eu acho que, se fizer sua Gemma atrair insetos ao redor, depois tiro ela fora, assim você não consegue controlá-la. Mas tem uma razão, veja bem! Faço algumas modificações físicas em você, implanto alguns dispositivos do Mannequin pra você ter energia suficiente pra continuar, e energia para manter os insetos vivos. Você vira uma colmeia ambulante, entendeu? A gente até pode fazer eles entrarem em você e construírem ninhos aí dentro.”

A boneca de pelúcia empurrou a porta e entrou na cafeteria. A sala escureceu enquanto ela passava na frente de uma janela.

Por favor, não perceba.

“Tenho um mod pra sua amígdala, pra garantir que você se comporte, e uma moldura que eu coloco na sua estrutura óssea e no coração pra te controlar, te deixar mais forte, resistente. Pensei em uma mudança estética também. Admiro essa armadura, então por que não levar isso ao extremo? Vamos te dar um exoesqueleto. Ia ficar demais. Olhos compostos, garras... Vemos até onde podemos chegar. Vai ser divertido, né?”

A boneca de pelúcia parou no meio da cafeteria. Ou ela não ouviu Bonesaw, ou algo mais chamou sua atenção.

Senti aquela sensação familiar de escuridão se aproximando das bordas da visão. Estava desmaiando? Quanto sangue tinha perdido?

Pisquei três vezes. Rapidez.

“Não, não.” Ela acariciou meu cabelo, e minha testa ardia com uma dor latejante onde ela tinha cortado. “Precisamos terminar antes que você morra. Não posso deixar de ver as mudanças na sua respiração e na dilatação das pupilas.”

Começou a ligar a serra e pressionou contra o meu crânio. O horror do que ela fazia era agravado pelo som absurdo, um zumbido de feitos, além de uma vibração de trituração no meu crânio.

Se doía, eu não percebia, porque o barulho da ferramenta tinha atraído a atenção da boneca de pelúcia. Ela avançou por nós, destruindo a barreira de vidro do balcão de refeições. E bateu forte em Bonesaw, que escorregou sobre minha cabeça, cortando minha linha do cabelo. Eu só não me importei.

Meu salvador era um tipo de dinossauro cartunesco, feito de pano azul e preto. Eu via o símbolo daquele clube de saúde várias vezes na parte de fora da boneca.

De canto de olho, vi Bonesaw lentamente se levantar. Os dois estavam opostos, na visão periférica; Bonesaw à esquerda, a criação da Parian à direita.

“Isso é muito deselegante,” Bonesaw falou, enfatizando cada palavra. “Eu tava tendo uma boa conversa com a Skitter, e você interrompe?”

Ela estalou os dedos, e aranhas mecânicas saltaram de um ponto que eu não consegui ver pra se fixarem na boneca de dinossauro inflável, como fizeram comigo antes.

Agulhas, serras, bisturis e brocas atacaram o dinossauro, que, por sua vez, treinou para esmagar as aranhas na medida do possível. Ainda que bateu nelas com as mãos, pés e cauda, continuou avançando em direção à Bonesaw, passando por mim e pelos outros.

Bone saw, por sua parte, recuava, segurando uma das provetas numa mão, e na outra, jogando coisas que pareciam cubos de açúcar codificados por cores na direção delas. Ela olhou rapidamente ao redor, então correu até uma bancada, pegou uma garrafa de água e virou por cima das provetas, numa tentativa de pressa ao invés de precisão. Mais da metade da água se espalhou pelos seus pés.

A criação da Parian atingiu a vilã uma segunda vez. Bonesaw foi empurrada com força suficiente pra amassar uma prateleira metálica, que ficou amassada. Uma das provetas escorregou de seus dedos.

A outra ela jogou contra o dinossauro inflável. Impacto forte o suficiente pra quebrar ao contato.

O dinossauro atingiu Bonesaw uma terceira vez. Por mais forte que o impacto fosse, Bonesaw estava encurralada, e não saiu voando como antes. Minha visão era limitada às costas da cabeça do dinossauro, e às vezes a visão de um braço curto sendo puxado para um soco poderoso. Ela o atingia repetidas vezes, uma pancada atrás da outra.

Meu coração afundou ao ver o dinossauro começar a desinflar. Ela recuou de Bonesaw, e notei uma área se expandindo na lateral, onde o tecido estava afinando e ficando desbotado. Quando os primeiros buracos apareceram, tudo virou uma explosão de desmaio: ele se desfez quase como uma explosão, revelando uma figura lá dentro.

Parian jogou fora o pano que cobria ela e usou seu poder para rasgar sua manga e parte do vestido, onde estavam se desintegrando; tudo que tinha comido o tecido de sua armadura de dinossauro continuava a consumir sua roupa.

Eu também vi Bonesaw. Sua face estava ensanguentada, o nariz jorrando sangue, e a bochecha uma bagunça arranhada. Tudo que tinha devorado o dinossauro da Parian também tinha caído nela, destruindo os detalhes do vestido, um meia e parte do sapato do mesmo pé.

Grosseira.”

“Você matou minha mãe,” a voz da Parian soava oca.

“Meus colegas fizeram a maior parte do trabalho, então acho que não foi eu, se isso te fizer sentir melhor.”

“Minha tia, minha melhor amiga, minha prima… todas estavam aqui.”

“Lugar errado, hora errada?” Bonesaw deu de ombros. Ela bateu numa vespa que conseguiu se posicionar para picá-la. Ela não estava mais na área da fumaça anti-inseto dela.

“Disseram pra eu correr, pra proteger as crianças. Mas elas deviam ter escapado enquanto eu lidava com aquilo,” a Parian parecia perdida, desorientada. “Achei que iam fugir, então fiquei fingindo que tava morta. Eu não sabia.”

Ela não era uma lutadora, eu me lembrei. Ela resistiu ao Leviathan, mas não tinha experiência. Eu queria gritar com ela, fazer ela parar de falar, fazer alguma coisa contra Bonesaw.

“Se isso te ajuda, alguns deles ainda podem estar vivos. Não matamos todos.”

A Parian virou sua atenção pra Bonesaw. “O quê?”

“Deixei alguns com vida, pra eu fazer uma cirurgia plástica rápida. Minhas aranhas cuidaram da maior parte. Implantes sob a pele, alguns corantes químicos no cabelo…”

“Cirurgia plástica?” Parian balançou a cabeça. “O quê? Por quê?”

“Pra fazerem parecer com a gente. Estão por aí, atraindo fogo inimigo e assustando geral. É engraçado. E, claro, demora uma dúzia de visitas com médicos menos habilidosos que eu pra voltarem a parecer com as antigas. Imagina a quantidade de gente que vai fazer 'Ai meu Deus,é a Sibéria!', só que não.”

Parian jogou uma mão na direção de Bonesaw. Não vi exatamente o que aconteceu, mas meus insetos que ainda pululavam na direção dela me mostravam que havia fios entre elas. Um inseto pousou na ponta de uma agulha onde ela tinha perfurado o lado do pescoço de Bonesaw. Vinte ou trinta agulhas com fios estendidos entre elas e a manga da Parian.

Bonesaw mastigou algo na boca. “Você tá jogando bem pesado. Ai. Acho que quebrou um dos meus dentes, com seu dinossauro.”

Parian ignorou. Um movimento das mãos, e Bonesaw foi levantada do chão, com os braços estendidos como se estivesse amarrada. A pele de Bonesaw esticou onde os agulhões puxavam. Parian avançou na direção da vilã.

Dente quebrado? Não. Quando eu chutei a Cherish antes, ela tinha dito que Bonesaw tinha reforçado os dentes, né? Certamente, a maluca teria feito o mesmo por si mesma.

Ela estava mentindo.

E não tinha nada que eu pudesse fazer pra avisar a Parian.

Parian pegou um dos bisturis que Bonesaw tinha colocado perto de mim. Sua mão tremia, mesmo segurando com força. “Não quero fazer isso. Nunca quis brigar. Mas não posso te deixar escapar. Isso é o mais importante. Estou disposta a abrir mão do que acredito, de mim mesma, pra conseguir.”

Bonesaw virou os olhos.

Muros! Barreira!

Meus insetos deixaram a presença dela pra formar uma barreira entre ela e a Parian, mas eram poucos demais. Muitas tinham morrido na fumaça anti-inseto de Bonesaw. A Parian ignorou.

Num movimento, ela se aproximou, enfiou a tesoura na garganta de Bonesaw. Depois fez isso de novo, e de novo, cravando a faca uma atrás da outra, quase histérica.

Não era sangue suficiente. Eu sabia disso, e a Parian tinha que saber também.

Bonesaw cuspiu na cara da Parian. A sua própria carne queimou ao derramar o químico que segurava na boca, escorrendo pelo lábio.

Parian, por sua parte, largou o bisturi, arrancou a máscara e cambaleou, cega, na direção do lavatório, com as mãos cobrindo os olhos.

Não.

O que eu daria pra poder mudar isso, agir, oferecer pelo menos uma palavra de ajuda.

Bonesaw virou a cabeça e cuspiu novamente, direcionando um resquício do químico às linhas. Quando isso não deu o resultado esperado, repetiu o procedimento. Os fios se romperam e ela caiu no chão.

“Queimou minha língua,” Bonesaw disse, para ninguém em particular. Ou pra mim? Ela esticou a língua para mostrar. Estava queimada, ferida, coberta por carne morta branca, assim como o lábio. Cuspiu de novo.

Parian alcançou o lavabo, ligou a torneira. Não havia água. Ela se jogou de lado, sentindo ao redor do balcão algo, qualquer coisa, pra lavar os olhos.

“Você é sortuda por eu ser tão boazinha,” Bonesaw falou. Ela levantou a barra rasgada do vestido pra tampar o lábio e a língua. Eu via tubos de ensaio, equipamentos e bolsas, grudados em seus quadris e barriga. “Se eu fosse uma pessoa menos perdoadora, te obrigaria a se arrepender.”

Parian caiu de joelhos, com as mãos apoiadas no balcão, ofegando.

“Mas, ao invés disso, vou te deixar aí, pensando no que fez,” Bonesaw falou. Ela arrancou alguns agulhões da pele. “Vou terminar com esses aqui, e depois, te mostro o que faço com agulha e linha. Vai ser divertido. Interesse comum!”

“Fazendo amizades, Bonesaw?”

Não. Toda esperança que eu tinha desapareceu.

Jack se inclinou sobre o balcão. Burnscar estava ao lado dele, com cara preocupada.

“Jack! Sim! Tô me divertindo muito! Essas pessoas são tão interessantes,” Bonesaw sorriu.

“Você se machucou,” Jack franziu a testa. “Na boca.”

“A boneca-guria me surpreendeu. Mas tô bem. Me conserto depois que terminar aqui.”

“Tem que acabar rápido. Nós vamos sair daqui.”

“Não!”

“Sim. O inimigo está se recompondo dos primeiros golpes, e estão atrapalhando Siberian e Crawler. É só uma questão de tempo até eles atacarem de lado ou atacarem pelo lado errado. Vamos embora, e eles só vão lembrar de quanto nos bateram e de quanto foram incapazes.”

“Mas eu tenho meus estudos!”

“Traga três. Não vamos conseguir levar todos, e você sabe que eles ficam bagunçados se ficar muito tempo assim.”

“Só três?” Bonesaw fez biquinho.

“Só três.”

“Então, hum… Skitter…”

Senti mãos puxarem meus pés, me tirando dos colegas. Burnscar. Ela me segurava por um braço, minha cabeça e braços pendurados. Pingou sangue no chão.

“Hum, hum. Tattletale. Quero ver como é o cérebro dela também.”

“Tá bom, Tattletale.”

“E Trickster! Porque a garota de fogo matou o Hack Job. Quero outro.”

Hack Job?

“Trickster, então. Acabe com eles.”

“Posso deixar o Brian? Preciso mostrar minha arte pras pessoas pra ficar conhecida.”

“Brian, é? Hm. Acho que essa é uma ideia ótima.”

“Sim! Então vamos do primeiro ao último. A garota com os chifres.”

Imp?

Começou a serra circular, que produzia aquele zunido agudo.

Aí parou. Ouvi um som gorgolejante.

“Ai. Olha o coração dele batendo! Tão rápido!”

Burnscar virou, e eu pude perceber que eles estavam olhando para o Brian.

Outro som gorgolejante, tentando e falhando em formar palavras. Tão forçado e irregular que fez minha garganta contrair em solidariedade.

“Você não quer ver sua irmã morrer, né? Que querido,” Bonesaw disse. “Talvez devesse ter ensinado o básico pra ela. Não precisa ver ela indo direto pra uma armadilha modificada. Sabia? Ela desligou o poder dela só pra pedir ajuda. Da gente. Não é muito esperta.”

Ele fez um som que poderia ter sido um rosnado ou um uivo de raiva, mas não tinha volume, era mais agudo que qualquer coisa.

“Não se preocupe!” Bonesaw disse, “Vou cuidar bem dos seus amigos.”

Senti uma mão bater na minha bochecha.

“Vamos lá, Bonesaw,” Jack falou.

“É divertido ver ele reagir. O coração dele acelerou quando toquei nela.”

“Acelerou mesmo. Mas vamos embora. Burnscar? Queime os que não vamos levar.”

“Eu queria fazer isso!”

“Você teve sua chance, seu bobo. Te distraiu.”

Senti o calor da chama perto, enquanto Burnscar manifestava uma bola de fogo numa das mãos.

A escuridão rastejou pelos pés de Burnscar, como um tapete. Não tinha direção, nem volume, só se espalhava pelo chão.

“Sim! Ele tá fazendo! Posso olhar? Quero pegar o HD!”

“Não.”

“Mas—”

Senti meu coração batendo forte, forte, até parar. A dor desapareceu. Eu também desapareci. Não tinha corpo, só percepção.

A cena era familiar. Mas, ao mesmo tempo, não saberia dizer o que aconteceu a seguir. Era como um livro que eu tinha lido anos atrás e esquecido, demais estranho pra guardar na memória.

Dois seres giravam por um vazio sem ar, passando por sóis, estrelas e luas. Eles se moviam na corrente gravitacional, consumiam radiação e luz ao redor, e puxavam coisas que eu não conseguia perceber. Inseriam partes de si mesmos e saíam da realidade para se reformar. Avançavam mais fundo nesta realidade, para seguir a atração de um planeta, mudavam sua forma em outro para aproveitar o impulso, ou buscavam outras fontes de força. Dez mil e uma vezes cada uma das duas entidades existiam ao mesmo tempo, se complementando, se empurrando adiante. Desprezavam até mesmo as leis físicas que limitam o movimento da luz, acelerando a cada instante. A única coisa que as desacelerava era o desejo de permanecer próximas, de manter uma na vista da outra e igualar as velocidades. E, de alguma forma, esse movimento era gracioso, fluido, até bonito. Duas criaturas impossíveis, movendo-se em perfeita harmonia com o universo, deixando um rastro de essência por onde passavam.

Concentrei-me em uma delas, e tive a sensação de que isso não era uma cena que eu tinha visto antes.

Podia ver o que ela via. Olhava à frente, mas não em termos de distância. Dez mil fotos de uma vez. Situando-se em pontos onde chegava ao destino final. Terra. Quanto mais avançava, mais possibilidades se ampliavam. Procurava algo. Eliminava ramos onde as possibilidades eram poucas. Uma Terra de inverno eterno. Uma Terra com uma população de centenas. Uma Terra com mais de doze bilhões de habitantes, estagnada culturalmente, numa idade escura moderna, com uma religião única.

E ela se comunicava com seu parceiro. Sinais transmitidos não por ruído, mas por ondas de frequência que atravessavam as forças mais fundamentais do universo. Assim como recebia informações, trabalhava junto ao parceiro para decidir o destino.

Ela observava um mundo, um ponto no presente, e, num piscar, absorvia trilhões de imagens. Bilhões de indivíduos, vistos separadamente ou como uma cena de quadro. Cenários, paisagens, fragmentos de texto, ideias. Numa batida, vi pessoas que, de alguma forma, me pareciam familiares. Um jovem, um adolescente, estranho entre seus pares, homens musculosos. Todos estavam bebendo. Ele era bronzeado, com quadris estreitos, testa franzida de preocupação acima de óculos grossos, mas sua boca formava um sorriso de lado, com algo que um dos homens dizia. Uma foto instantânea, um momento capturado.

Era o meu mundo, minha Terra que ela observava.

Chegando a uma decisão, ela transmitiu seu veredicto. Destino.

A resposta foi quase imediata. Concordo.

Mais sinais passaram entre eles, explícitos e sutis. Uma fusão de mentes, uma troca de ideias, tão íntima quanto tudo que já tinha visto. Continuaram se comunicando, focadas naquele mundo, nas possibilidades de futuros que poderiam surgir, compromissadas com nenhuma, mas explorando aquilo que estava à sua frente.

Eles se separaram, os dois seres enormes que giravam juntos, e, aos poucos, perdi o vislumbre do que eles pensavam, do que comunicavam. Qualquer visão que tivessem do futuro, estavam perdendo. Era demais pra processar sozinhos.

Onde já vi isso antes? pensei.

Mas, no meio de pensar e concluir, desviei a atenção de tudo que tinha visto. Estava escapando daquilo que minha mente tinha visto. Era como uma lembrança que se desfazia, que escapava da minha memória. O vazio em que estava não era o mundo dessas entidades, mas o mundo do Brian. O poder do Brian.

A escuridão se enrolou ao meu redor, por mim. Era diferente, escorregando pela minha pele para tocar meu coração, traçando a borda dos meus ferimentos, a cicatriz na minha cabeça feita pelo serra da Bonesaw, deslizando por dentro do meu cérebro.

Senti meu poder escapar um pouco mais, minha distância de alcance diminuir, meu controle sobre os insetos ficar um pouco mais fraco.

Mas ainda podia ver através deles. Sentia o que eles sentiam. Eles tinham se reunido para a barreira que eu tentei erguer entre a Parian e a Bonesaw, e se dispersaram desde então, tocando todos presentes. Burnscar tinha apagado a chama, segurava a mão ao peito. Eu sentia Bonesaw e Jack, a uma curta distância. Eu sentia Trickster, Sundancer, Tattletale, Parian, Ballistic e Imp. Sentia Grue, pendurado na parede do freezer.

Senti outra pessoa, alguém que não estava ali há pouco. Um homem na escuridão.

Ele avançou, sem se importar com a treva. Pegou Burnscar na face com uma mão larga, e a ergueu firmemente contra a bancada. Fui jogado ao chão. Burnscar caiu sobre mim, sem se mover, e o homem desapareceu num instante.

A escuridão se foi, seguindo seus passos por dentro do meu corpo, desfazendo seu caminho através de meus órgãos e articulações, pelas minhas veias.

Formou-se uma clareira. Uma área de luz fraca, iluminada apenas por um feixe que entrou por uma janela no canto. A cabeça de Burnscar foi destruída, irrecognoscível. Ela jazia imóvel, sem reação, morta.

“Interessante,” disse Jack, olhando para sua companheira caída.

“Sim! Tenho quase certeza de que consegui gravar isso!” Bonesaw exclamou.

“O que vocês vão deixar pra trás. Vamos recuar.”

“Eu só preciso do HD! Tentei há tempos obter esses dados, e é um sistema novo!”

Bonesaw tentou correr até o refrigerador, onde estava o Brian, mas Jack a segurou pelo pescoço. “Não.”

“Tudo bem! Dois segundos! Volto já!” Ela se soltou dele, correndo para o freezer, abrindo uma das caixas parecidas com as do Mannequin.

A escuridão continuava se dissipando ao redor do Brian, e eu percebi, enquanto uma figura masculina apareceu na névoa, num canto do freezer.

Era o Brian, mas não era. Era em tom monocromático, com um olho aberto, o outro meio formado. Marcas em branco cobriam sua pele, spirais partindo de um peitoral, cobrindo o peito e o estômago. Suas mãos eram brancas até o cotovelo, e ele era sem sexo definido. Uma boneca ken com apenas mais padrões brancos entre as pernas.

Ou talvez fosse branco, e as marcas fossem pretas?

Quase casual, ele estendeu a mão e agarrou as mãos da Bonesaw, que segurava o HD. Levantou ela do chão, os pés mexendo, enquanto sua pegada apertava.

“As coisas que eu suporto,” comentou Jack, aparentemente indiferente. Ele puxou uma faca de açougueiro do balcão da cozinha e cortou Bonesaw ao meio. Não fez efeito. “Hum.”

Puxando uma machadinha da bancada, ele cortou Bonesaw, precisando de três golpes para separar os braços dela até os pulsos. Ela caiu e se ergueu rapidamente, com os estigmas cortados nas axilas. Desapareceram além do balcão do refeitório, com Jack ajudando Bonesaw a se levantar.

Brian em tom monocromático avançou na direção deles, mas o chão do freezer se quebrou sob um pé. Ele perdeu o equilíbrio e desapareceu de novo.

Eu via o Brian deitado ali, enquanto lutava pra respirar sob as dezenas de quilos que estavam por cima dele. Ele pendurava-se ali, exausto, encarando algo que não era visível. O homem não reapareceu, mas a série de eventos incongruentes continuava; via uma das costelas de Brian tremer como um membro de inseto moribundo.

De forma lenta e inexorável, seus tecidos começavam a reentrarem no lugar. As molduras de metal que sustentavam seus intestinos e órgãos se curvavam, cedendo diante do impulso implacável.

Levou bastante tempo. Quatro, cinco, talvez dez minutos. Mas sua pele foi se fechando, rasgando onde tinha sido presa à parede, juntando-se novamente, cicatrizando. Até mesmo os arranhões que cruzaram seu peito na luta contra Cricket começaram a sarar.

A cura parou antes de completar-se totalmente. Vi a figura reaparecer. O Brian em tom monocromático, meio formado. De forma implacável, rasgou os rebites de metal que prendiam seus membros na parede. Pegou Brian e cuidadosamente o deitou no chão.

Ele não podia andar, então arrastou-se na direção de nós.

Teve outro evento desencadeador. Duas novas habilidades? Três, se eu contar como a dele está diminuindo a minha?

Ele tocou minha mão, segurando-a com as dele. Senti alguma coisa pulsando dentro de mim, querendo que eu pegasse aquilo.

Demorei um minuto para descobrir como. O osso exposto na testa doía, depois cantava numa dor deliciosa enquanto se consertava. Minha pele, em seguida. Os músculos que travaram foram os últimos. Meu poder foi o último a se reconstituir, embora o efeito diminuído continuasse.

Segurei o punho, tentei me levantar. Brian correu até Aisha, segurando-a.

Quatro novas habilidades?

Nunca tinha ouvido falar de algo assim.

“Vamos,” ele falou, rouco, “Não tenho muito tempo. Eu— Droga!”

A escuridão dele saiu da própria pele, mais pesada do que eu já tinha visto, lenta para se expandir, mas parecia se gerar sozinha. Escorregou por dentro de mim de novo. Escorregou pelos meus insetos.

Faltaram minutos para a escuridão se dissipar. Quando isso aconteceu, Tattletale estava de pé. Parian também, do outro lado da sala, com os olhos arregalados. Os três Viajantes estavam juntos.

“O que foi aquilo?” Perguntei. “Brian, ei—”

Parei. Ele estava de quatro, cabeça pendurada, bochechas molhadas de lágrimas.

Estendi a mão para ele, mas uma mão segurou meu pulso. Tattletale. Ela fez sinal pra mim, balançando a cabeça.

Enquanto recuava, Tattletale foi até o Imp, cochichou algo no ouvido dela.

Imp abaixou a máscara, dizendo numa voz bem mais gentil do que tinha ouvido antes: “Ei. Irmãozinho? Vamos sair daqui.”

Brian assentiu, sem falar.

Aisha podia chegar perto dele, mas eu não?

Ele se levantou, recusando a ajuda de Imp, segurando um cotovelo com uma das mãos, o braço pendurado. Não parecia ferido, tinha certeza disso. Estava cicatrizando o pior. Era alguma outra coisa, uma segurança na postura ou coisa do tipo.

A escuridão saiu da sua pele, em uma fina camada. Movia-se devagar, mais espessa, como tentáculos deslizando um contra o outro, ao invés de fumaça. Assim como o braço no peito, segurando o cotovelo pra se estabilizar, era um tipo de barreira, armadura ou uma parede erguida contra o mundo. Ele caminhava lentamente. Ninguém reclamou, apesar dos inimigos próximos, e do fato de que a escuridão espalhada por ele devia ter alertado o grupo do Hookwolf sobre nossa presença.

Observava Brian, enquanto eu caminhava atrás dele. Eu tinha acabado de ficar paralisado, prestes a passar por uma cirurgia cerebral involuntária. Agora, de uma forma bem diferente e por motivos diferentes, eu estava mais uma vez incapaz de ajudá-lo. Nem sequer podia falar com ele, com medo de dizer a coisa errada.

Mesmo comparado ao episódio no domínio da Bonesaw, me sentia mais impotente do que nunca.

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