
Capítulo 131
Verme (Parahumanos #1)
“Sam! Sam!” A voz de Celia foi irritante e nasal.
“Tô indo!” O homem corpulento resmungou enquanto se dirigia à sala de estar. Celia estava sentada no chão, entre o sofá e a mesa de centro. O branco da camiseta e da calcinha dela contrastava fortemente com a pele escura. Sam fitou a mulher com um sorriso malicioso. Ela era bonita para a idade, magra, embora os seios caíssem por trás da camisa, sem os benefícios de um sutiã.
“Você disse que ia em cinco minutos, seu idiota. Demora cinco minutos pra achar sua carteira?”
“Precisava mijar. A sua grandona amiga tava no seu banheiro, então escrevi na pia.”
Celia chutou sob a mesa de centro para atingir a canela dele.
Sam apenas sorriu e recuou. “Brincadeira. Saí pela escada de incêndio.”
“Isso não melhora!”
“Tá tudo molhado lá embaixo. Lugar que não cheira a lixo quente, cheira a banheiro. Aqui. Para de reclamar.” Ele jogou uma cartão de locação de filmes de plástico na direção dela.
Ela abriu o plástico de um bloco de pó, sacudiu uma pequena quantidade do pó na mesa de centro. Usou o cartão laminado para fazer linhas, um conjunto de cada lado da mesa, sem nenhuma na frente dela.
“Você não vai querer um?”
“Já te falei. Tô grávida.”
“Você tá velha demais pra estar grávida,” comentou Sam. Ela chutou novamente.
“Não sou tão velha assim!”
Jennifer saiu do banheiro e parou na porta, encarando a cena.
“Achava que você realmente não ia usar nada.”
“Jen, querida,” disse Celia, “A gente tem o suficiente pra todo mundo. Mesmo se vendêssemos só metade, ficávamos tranquilas por cinco ou dez anos.”
“E você ainda pegou?”
“Os líderes dos Comerciantes foram mortos, todo mundo decidiu fugir com o que tinha de estoque. O Sam e eu decidimos agir com esperteza. O Sam pegou a caminhonete dele, e eu fiquei de guarda na reserva contra os outros idiotas. Valeu a pena.”
“Eu… o que é isso?”
“Um pouco de tudo. Vem, senta aí. Experimente um pouco.”
“O que é isso?”
Sam se sentou à mesa, ao lado de um conjunto das linhas de pó. Pegou um punhado e colocou na língua. “H.”
“Nem a pau,” disse Jennifer, abaixando-se numa das cadeiras com estofado de feltro no canto mais distante da sala.
Aisha teve que pular para fora do caminho para não ser pisada. Observava a conversa entre sua mãe, o namorado da semana dela e a nova amiga com uma expressão indiferente. Ao ver essa cena, ela realmente não sentia muita coisa. Uma decepção. Vergonha. Nojo.
Não, era menos essa cena e mais a descoberta de que sua mãe estava grávida que a derrubou no estômago com uma tristeza profunda.
A primeira coisa que seu pensamento pensou, antes da alegria de imaginar um irmão ou irmã, antes da raiva por sua mãe permitir que isso acontecesse e não usar preservativo, foi esperança.
“Sam, você tem algum papel para enrolar?”
“Papéis de enrolar? Pensei que você fosse parar com isso.”
“É só maconha. Preciso de algo.”
“Não é perigoso para a criança a caminho?”
“É maconha, idiota. Tudo que dizem que é verdade, é mentira. A criança não vai ficar viciada desde o nascimento, nem nada, porque não é viciante. Certo?”
“Claro,” ele meteu a mão no bolso das costas e entregou um pacotinho a ela, junto com uma carteira de vinte dólares.
Aisha mordeu o lábio. Talvez esperança não fosse a palavra certa, porque ela realmente não sentia nada sobre o assunto. Mas tinha a sensação de que provavelmente seria melhor se sua mãe abortasse e a criança fosse poupada dessa merda.
Quanto das problemas dela eram por causa da falta de autocontrole da mãe e quantos eram resultado do ambiente que ela cresceu? Ela tinha uma mãe que nunca envelheceu mental ou emocionalmente além dos quinze anos. Ela tinha um homem novo na casa a cada semana ou duas, com suas próprias ideias de como as coisas deveriam funcionar, enquanto Celia geralmente deixava eles mandarem no que quisessem.
Aisha tentou não pensar nos homens. Era como ter o braço quebrado; enquanto ela não mexesse nele, enquanto não pensasse nisso, tudo bem, uma dor latejante na parte de trás da cabeça. Algo que poderia ignorar. Mas até um pensamento solto podia lembrar que o braço tava quebrado, e às vezes levava dias até ela conseguir sair desse estado mental. Não tinha distração que ajudasse, porque o fato de ela estar consciente procurando por uma distração só a fazia lembrar do que tentava esquecer.
Claro, não havia como evitar os inúmeros lembretes no dia a dia que a faziam lembrar de Guy, ou Bridge, ou Darren, ou Lonnie. Pensar em um braço quebrado era um desses lembretes.
Ser ignorada pelos colegas e mandada pra seu quarto pra fingir que se comportar era o melhor que podia acontecer era outro. Quantas tardes ela tinha chegado da escola, só pra sua mãe ou um dos namorados dela mandar ela embora ou oferecer alguma recompensa pra ela sair do apartamento por um tempo?
Isso a irritava. Ela não precisava disso do irmão também.
“Vamos lá, Jennifer,” incentivou Celia, amiga dela. Ela pegou uma tragada longa do baseado que segurava entre os dedos. “Ah, droga! Sam, seu idiota! Isso não é só maconha, né?”
“Achei que fosse.”
“Tem um efeito forte. Um rebite ou algo assim.” Celia deu outra puxada. “Rebite. Ei, Jen, entra na brincadeira. Experimente um pouco do que o Sam tá usando.”
“Mas o H é assustador,” reclamou Jennifer.
“Você ouve. Mas por quê é assustador?”
“É viciante.”
Aisha ignorou o barulho da mãe e do Sam tentando convencer a mulher e se dirigiu à mesa. A mãe dela nem notou. Ninguém notava ela, e a partir do momento que ela ganhou seus poderes, nem notavam mais. Era como uma piada de mal gosto, uma comédia sombria. Quando ela tinha conseguido entender as coisas, crescido e chamado atenção, o mundo virou de cabeça pra baixo e ela conquistou seus poderes. Agora ela ficava invisível se perdia a concentração.
Não que fosse invisibilidade de verdade. Era memória. As pessoas esqueciam dela tão rapidamente que nem percebiam sua presença. Ela sentia isso, seu poder percorrendo sua pele, se projetando pra fora, invisível aos olhos, ao toque e a qualquer coisa, fazendo contato com as pessoas ao redor e empurrando as memórias delas pra longe.
E como na metáfora dela, comparando suas memórias a um braço quebrado, seu poder parecia responder à atenção das pessoas; quanto mais tentavam se lembrar e focar nela, mais ela escorregava de suas mentes.
A metáfora tinha outro sentido também. Seu poder funcionava sozinho, fazendo o que tinha que fazer, e se ela notasse casualmente o que ele fazia, sem tentar puxar ou segurar, ela percebia que ele fazia outra coisa. Como se estivesse pronto pra empurrar lembranças que não tinham relação com ela, exatamente. Mas nunca fazia isso. Sempre que acumulava o suficiente pra quase fazer algo, ela percebia, e ele recuava como uma tartaruga encolhendo a cabeça na carapaça.
Frustrante. Seu poder não fazia nada só porque ela queria. Funcionava só se ela entregasse a ele, deixasse agir por conta própria. Forçar pra ele trabalhar mais tinha o efeito oposto.
Que facilidade teria em simplesmente carregar essa merda pra longe? Poderia entregar pro Coil, ganhar uns pontos, e ele decidiria o que distribuir. Assim estaria fora das mãos da mãe, e o dinheiro seria uma limitação pro hábito dela. Se as drogas sumissem, talvez o Sam fosse embora.
Talvez, se Aisha se livrasse das drogas, sua mãe teria uma desculpa pra colocar as coisas no eixo de novo, de alguma forma. A cidade tava pagando quem entrava nas equipes de limpeza. Três refeições por dia, simples e sem graça, mas forneciam os nutrientes essenciais, e davam vinte dólares por nove horas de trabalho. Se ela brincasse ou relaxasse demais, ela simplesmente era tirada da equipe no dia, sem pagamento.
Fantasias vãs. Aisha passou anos desejando que sua mãe se recompusesse, desde logo após o divórcio, quando um dia ruim ainda era melhor que a maioria dos bons dias agora. Ou talvez fosse só nostalgia, visão de criança.
Não. Se ela se livrasse das drogas, era mais provável que alguém explodisse de raiva. Sam ou sua mãe, ficando violentos, verbalmente ou de uma outra forma. Faria mais mal do que bem.
Ela se sentou na mesa de centro, de frente pra sua mãe. Estendeu a mão, pegou o baseado dos lábios dela e deixou cair, esmagando com o dedo do pé.
Sua mãe piscou algumas vezes, então procurou o papel de enrolar.
Aisha cobriu as mãos com os papéis e sussurrou: “Não.”
Mais um piscar tonto. A mãe perguntou: “Sam? Tem mais papéis?”
“Acabei de te dar um pacote inteiro.”
“Que porra? Talvez aquilo tenha me pegado mais forte do que pensei,” ela riu. “Minha mãe.”
Aisha olhou nos olhos dela. Não desativou o poder. “Mãe. Você precisa parar.”
“Cadê os outros papéis, Sam?” ela perguntou, sem consciência.
“Na cozinha.”
“Mas eu não quero levantar. Tô confortável aqui,” reclamou Celia.
“Se continuar nesse ritmo, sua filha vai nascer sem rosto ou coisa pior,” disse Aisha, com voz baixa. “Sabe como a escola foi difícil pra mim? Desde o jardim de infância, não conseguia ficar quieta. A professora me diz três coisas, e quando chega na terceira, já esqueci a primeira. E o Brian nem tem isso.”
“Vai buscar uns papéis, Sam. Sam McSamsam. Sammy-sam. Samster-”
“Não quero levantar mais do que você,” rosnou Sam. “Você não é das que falam muito, né? Eu gosto de silêncio.”
“Mãe,” disse Aisha, como se pudesse chamar a atenção dela. Ironicamente, ela sabia que se desativasse o poder, teria ainda menos chances de conversar com a mãe. Não era só a máscara de chifres e o traje preto. Ela nunca tinha tido alguém pra simplesmente sentar e ouvir. O pai ignorava, a mãe era egocentrada, e o Brian tava tão focado no que tinha que fazer que ignorava tudo ao redor.
“Mãe. Você vai fazer um filho zoado, e vai morrer de overdose antes dele crescer. Não é justo deixar uma criança mais retardada que eu, ou um monstro deformado pra cuidar do Brian. Não é justo com ele, e não é justo que a criança tenha que aguentar o idiota também.”
“Tudo bem,” disse a mãe, levantando-se. “Vou pegar os papéis sozinha.”
Aisha suspirou. Será que era covardia que a impedia de confrontar a mãe, ou o conhecimento, respaldado por anos de experiência, de que não faria diferença?
Talvez, se tudo do Nove desse certo e o Coil assumisse o controle da cidade, ela pudesse ajudar a mãe ou denunciá-la à polícia.
Mas não agora, não quando tudo tava assim, quando ela precisava provar que merecia seu lugar no grupo.
Deixando sua mãe procurando na cozinha barulhenta, Aisha foi para o seu antigo quarto.
O quarto dela tinha cheiro de sexo, e levemente de urina. A mãe tinha dado uma festa desde que ela saiu.
Respirando fundo, abriu a porta do armário. Empurrou as roupas que tinha roubado, furtado e comprado, além das velhas roupas que não podia ou não queria mais usar. O armário dela era em camadas, e cada camada tinha roupas e bugigangas de uma época diferente.
As coisas do escoteiro estavam no fundo, muito enrugadas pra usar. O pai tinha empurrado ela pra isso. Queria que ela tivesse estrutura. Depois de um ano e meio, até ele desistiu. Não era a dela. Ela não tinha o perfil.
Ao redor das roupas do escoteiro, encontrou uma pequena fita cassete e um velho par de binóculos. Depois de achar uma mochila antiga que nunca foi vazia de materiais escolares, pegou uns cadernos que só foram preenchidos em um terço. Rasgou essas páginas e colocou os cadernos sob o braço.
Tudo foi pra uma bolsa preta compacta, junto com sua taser e facas.
Coisas pequenas. Nada que ela não pudesse ter comprado numa loja de conveniência bem abastecida, talvez. Mas ela funcionaria melhor se estivesse relaxada, e ter alguns objetos pessoais a fazia se sentir melhor.
Isso só deixava o problema de encontrá-los.
Eles tinham atacado os Comerciantes, e observar sua mãe deu a ela a chance de descobrir onde. Era um ponto de partida.
■
Era pior do que ela imaginava. Ela evitou a fita de polícia e empurrou um policial com o braço enquanto entrava na área. Carros da polícia e vans da PRT tinham formado um perímetro amplo, com fita entre eles. Momentaneamente se perguntou por que não tinham barricadas de madeira. Era frágil, na questão segurança.
Estava chovendo fraco, e a pouca água não ajudava a limpar as manchas de sangue que escorriam na rua. Água se infiltrava nos lençóis brancos e marrons que cobriam os corpos, esperando alguém para limpá-los. A cor marrom, ela percebeu, era sangue seco.
Aisha foi se movendo entre os caídos. O pior do massacre ficava nas extremidades, como se uma linha invisível tivesse sido traçada, que ninguém podia cruzar, e no centro, onde pessoas se reuniram antes de serem brutalmente mortas.
Ela esperava por uma pista. Uma evidência, ou uma informação que os policiais tivessem ouvido de passagem.
Nem sinal disso.
Havia excesso de evidências. Quando os policiais processassem tudo aqui e identificassem os corpos, as folhas caíriam das árvores e o Nove já teria ido embora, de uma forma ou de outra. Os policiais também não estavam falando. Trabalhavam em silêncio, ou o que diziam não era interessante. Capturar o Nove não era a missão deles. Se encontrassem algo relevante, passariam pros heróis locais, provavelmente.
Não. Se houvesse alguma pista, não estaria aqui. Ela foi até a beira da cena, onde os carros da polícia haviam parado. Ainda tinha manchas e respingos de sangue aqui e ali, pegadas ensanguentadas, mas pouco mais. Ela rodeou os policiais e os carros, verificando cada pegada. Parecia que as vítimas ensanguentadas tinham caído onde estavam ou desaparecido. Ambulâncias?
Depois de inspecionar a área, seguiu pela rua até ver a próxima viela fechada. A mesma coisa: alguns rastros de sangue, nada além disso.
A terceira barreira ofereceu algo. Um ponto onde o sangue era mais espesso, diferente dos demais. A trilha se estendia mais longe do que as outras.
Ela olhou ao redor e viu uma mancha de sangue na lateral de um prédio, no terceiro andar.
Ok. Talvez eles tivessem ido por esse caminho.
A trilha de sangue que ela seguia lentamente se apagava ou era coberta pela chuva leve. A água levantava os óleos das rachaduras na rua, dando ao chão um brilho de arco-íris.
Os sinais de sangue desapareciam rápido demais, e Aisha só podia imaginar se ela tinha ido na direção errada, se tinha ido longe demais ou se a chuva tinha limpado tudo. Ela quase desistiu ali mesmo, mas viu um grupo de homens do lado de fora de um prédio de apartamentos.
Só ao chegar perto ela notou a carteira presa ao bolso de uma jaqueta de um deles. Um detetive. Havia sangue na porta que levava ao saguão do prédio.
O elevador provavelmente não funcionaria. Ela foi para a escadaria, só pra encontrar mais sangue. Como se um corpo tivesse sido arrastado.
Sabia que seguir adiante era uma ideia idiota. O Brian e a Skitter tinham conversado demais sobre os riscos. Ainda assim, ela já tinha feito isso antes.
Pegou a taser e a faca na mochila e subiu as escadas.
No terceiro andar, sangue na porta do corredor. Mais sangue escorrendo pelo corredor até uma porta de apartamento.
Confirmou que seu poder estava ativo e entrou com cuidado.
Apenas alguns dos Nove estavam lá. O Crawler dormia com a cabeça pesada sobre as patas cruzadas, subindo e descendo com cada respiração profunda. Era grande o suficiente pra quase atingir o teto ao respirar pelo nariz. Só metade dos olhos do corpo estavam fechados, cobertos por pálpebras grossas e cinzentas.
Shatterbird e Burnscar estavam no sofá, Burnscar deitada com a cabeça no braço, os pés apoiados no colo de Shatterbird. Ela segurava uma HQ no estômago com uma mão e criava chamas na outra, moldando-as para parecerem com as pessoas que via enquanto folheava as páginas. Shatterbird estava sentada ereta, com um livro nas mãos.
Bonesaw ficava de pé sobre a mesa da sala de jantar, com uma aranha mecânica do lado oposto, ajudando. Um jovem estava na mesa, com os pulsos e tornozelos amarrados. O torso dele estava aberto de queixo até a virilha, as costelas espalhadas. Bonesaw e sua aranha mecânica estavam até o cotovelo dentro do conteúdo do abdômen dele.
As aranhas.
Aisha se moveu rapidamente para o lado enquanto uma aranha saía da cozinha, passava por ela e ia até a mesa. Seja lá qual fosse a câmera ou inteligência artificial que usava, não parecia notar ela. A ara abria uma Coca-Cola diet que ela abriu com dedos ensanguentados e bebeu.
Com um pouco mais de confiança, Aisha avançou mais, mantendo distância de Crawler e das chamas de Burnscar, que tinham quase um metro de altura cada.
Segurando as armas, ficou ao lado de Shatterbird, num extremo do sofá.
Nunca tinha matado ninguém, mas ali estava, com uma arma mortal na mão. Podia cortar a garganta de Shatterbird e ninguém ia perceber que ela tava lá.
E, na opinião dela, eles perceberiam, sim, que Shatterbird tava morta ou morrendo. Tinha cinquenta por cento de chance, pelo menos, de fazerem ela perder o efeito que seus poderes tinham nas mentes deles. Isso já tinha acontecido antes.
Exceto que, nos últimos momentos, Shatterbird poderia matá-la, usando o vidro que tinha sido varrido pros cantos da sala, ou um dos outros. Burnscar ou Crawler poderiam causar um estrago, mesmo sem saber quem estavam atacando.
Devagar, ela se aproximou de Bonesaw, contornando os drones. Será que ela poderia matar a garota?
Pela perspectiva dela, Bonesaw era a que mantinha os outros membros em movimento. Tirá-la do jogo tiraria muitos problemas. Poderia acabar com Bonesaw e fugir pra cozinha, fora do alcance de Burnscar e Shatterbird. De lá, bastava chegar na porta da frente, e estaria segura.
Por outro lado, era assassinato, e era uma criança. Uma criança com cem mortes no currículo.
Um som de rangido desviou seus pensamentos. Era como ar saindo de um balão em pequenos jatos. Bonesaw? Não, a menina não fazia barulho. A aranha mecânica? Também não. Nenhuma das duas.
Ela se aproximou o máximo possível de Bonesaw e da aranha, investigando de onde vinham os sons. De onde estavam vindo?
Bonesaw sorriu: “Você vai ter que falar mais alto se quiser que eu ouça, Jonathan.”
Jonathan?
Aisha olhou para o corpo e percebeu que o coração ainda batia nas mãos de Bonesaw. Os olhos do homem se moviam, os lábios dele se mexiam enquanto lutava para formar palavras através da traqueia.
Um surto de horror e repulsa deu força pra ela deixar as dúvidas de lado.
“Desculpa, garoto,” ela disse.
Enfiou a faca na garganta nua de Bonesaw.
Bonesaw berrou, aguda e forte, surpreendendo Aisha. Com uma faca na garganta, a garota gritando?
Mais por instinto do que por raciocínio, Aisha puxou a faca de volta e a comprimiu horizontalmente pela garganta de Bonesaw.
Esperava um jato de sangue ou um gorgolejo. Nada aconteceu. Bonesaw gritou de novo.
Então ela puxou a faca e furou um dos olhos de Bonesaw. A lâmina raspou o osso da órbita ocular.
O fogo explodiu, e pedaços de vidro começaram a tomar vida ao redor de Aisha. Ela recuou rapidamente enquanto uma parede de chamas cobria Jonathan na mesa e a separava de Bonesaw. Houve um estrondo e o som de móveis caindo quando Crawler se levantou.
“Ow, ow, ow, ow!” gritou Bonesaw. “Está doendo!”
Por que ela não morreu?
Aisha arrancou a faca e segurou a taser.
“É o Jack?” Burnscar perguntou, olhando ao redor, e então para a janela, “Que porra é essa?”
“Não é o Jack,” disse Bonesaw. Ela piscou os dedos, e a aranha mecânica pulou em cima dela, começando a suturar os ferimentos no pescoço dela. “Eu dei a Jack as mesmas garantias que dei a gente, se ele tentasse, teria conseguido.”
Shatterbird fez uma cara feia. “Então quem ou o que foi aquilo? Crawler, você sabe?”
Aisha recuou em direção à porta da frente. Parou ao ver Crawler aparecer na entrada que leva da cozinha ao corredor principal, olhando para dentro, vendo seus colegas na outra ponta. Sua voz era uma confusão de sons que quase não se pareciam com fala. “Não sinto ninguém.”
Se nem o cheiro ela consegue achar aqui, então... pensou Aisha. Mesmo assim, ela não tinha rota de fuga.
“Queimar o apartamento todo e correr pra rua?” Burnscar sugeriu. “Depois a gente se encontra, em grupo.”
“Não. A Cherish tem dificuldade pra rastrear o Mannequin, e ele não vai saber como nos achar,” disse Shatterbird.
“Tô bem,” pipocou Bonesaw. Ela segurava uma mão na órbita, de onde saíam fumaça e faíscas. “Não precisa se preocupar. Dá pra arrumar meu pescoço rapidinho, depois que eu tirar o kit pra verificar as bainhas e meus sinais vitais, pra garantir que não há abrasões, e tenho olhos sobressalentes. Posso ficar com olhos verdes. Ou um verde e um azul, ou, se modificar, posso ter—”
“Calma,” interrompeu Shatterbird. “Menos por você estar ferida e mais pelo fato de que alguém teve a audácia de nos atacar aqui. Burnscar, apague esses incêndios. Não queremos chamar atenção.”
A parede de fogo diminuiu e desapareceu.
“Tomara que você não tenha outro jeito de me sentir, grandão,” disse Aisha a Crawler, passando entre as pernas dele e se dirigindo à porta. “Vou dar o fora agora.”
Nenhum dos Nove reagiu ao ela fechar a porta atrás dela.
Liçao aprendida. Os membros do Nove que pareciam mais frágeis não eram tão vulneráveis quanto pareciam. Sheaths, tinha dito a Bonesaw?
Ao entrar no saguão, ela parou de repente.
Um dos detetives que havia ficado ao lado da porta estava morto, com a garganta cortada. Deitado no centro do saguão. Dois rastros de sangue levavam para o lado oposto, perto das escadas.
Escritório do gerente?
Com a arma em punho, ela foi até a maçaneta, mas deu de cara com Jack saindo do escritório.
“O que foi?” Cherish perguntou.
Aisha recuou.
“Nada,” disse Jack. “Você pega o último corpo e encontra um balde.”
“Eu?”
“Acho que fui excessivamente generoso, dando uma segunda chance. Pode me devolver com um pouco do seu esforço.”
“Sempre cavalheiro.”
“Vai lá, agora. Eu fico aqui.”
Aisha viu Cherish passar por ela, pegar o policial corpulento e começar a arrastá-lo, centímetro por centímetro, até o escritório.
Só se lembrou de uma outra vez que o coração bateu tão forte assim. Quando os Merchants emergentes a atacaram, junto com o pai dela. Era outra chance. Enquanto separadas, ela podia atacar um. Mas qual?
Ela segurou a taser e a faca, ajustando a empunhadura pra ficar firme.
Jack era a peça chave. Aisha sabia que podia atacá-lo, sabia que talvez devesse, mas teria mais sucesso do que teve contra Bonesaw? Cherish poderia disparar alguma coisa às cegas, afetando as emoções de todos por perto.
Não. Cherish era a mais nova, não era? As chances eram melhores de que ela não tivesse as proteções que Jack e os outros tinham.
Respirou fundo e seguiu de perto Cherish enquanto ela puxava o corpo para dentro de outro cômodo. Entrou e fechou a porta.
“Guarde a arma,” disse Cherish, com voz calma.
Aisha engoliu em seco, percebendo a armadilha em que tinha acabado de cair. “Você consegue me ouvir?”
Um segundo passou, e não houve resposta.
“Guarde, ou vou te deixar tremendo num canto, cagando nas calças.”
“Você não consegue me ouvir.” Aisha segurou a arma e se aproximou.
Cherish se virou, os olhos varrendo pra direita e pra esquerda, procurando por Aisha. “Eu vou gritar. Ele vai entrar aqui, e com um ou dois golpes de faca, ele pode te cortar, seja invisível ou não.”
“Não é invisibilidade,” disse Imp, sem efeito.
“Guarde sua arma,” disse Cherish, com voz baixa e cuidadosa, “Só tenho alguns segundos antes que o Jack desconfie. Ouça. Quero fazer um acordo.”