Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 134

Verme (Parahumanos #1)

Ela está viva. Depois que a Bitch ficou sem contato, eu achei que a Burnscar tinha conseguido pegá-la.

A carne da forma monstruosa do buldogue estava se decompondo, desprendendo-se e apodrecendo em uma papinha líquida em questão de segundos. À medida que os tecidos que conectavam os ossos se desintegravam, ficavam soltos, se dobrando no lugar. A Bitch tentava abrir a caixa torácica antes que o restante da carne desabasse sobre o corpo verdadeiro do cachorro.

“Encontrei ela,” falei pelo celular enquanto corria na direção dela, meus botos de chuva espirrando água. “Sim. Avisem os outros sobre a reunião.”

A dor nas minhas pernas fazia eu soltar uma respiração ofegante toda vez que alongava o pé errado, e cada suspiro só aumentava a dor nas costelas. O ar estava aquecido, embora não houvesse incêndios por perto. O ar quente e cheio de fumaça, junto com a dor nas costelas, castigava até minhas respirações mais superficiais.

“Que porra você está fazendo aqui?” perguntou a Bitch.

Eu saquei minha faca, segurando-a pela lâmina e estendendo o cabo para ela. “Ajudando.”

Ela não respondeu, mas pegou a faca e se enfiou parcialmente no corpo do Bentley para começar a cortá-lo fora do saco protetor. Eu entrei na cena e usei meu ombro para ajudar a abrir a peito do cão. Minhas pernas gritavam de dor, mas eu podia lidar com ela. Era melhor aguentar alguma dor do que deixar a Bitch ser esmagada dentro da cavidade torácica do Bentley.

Ela saiu de lá com o buldogue pendurado sobre os braços, caindo de joelhos assim que ficou livre. Colocou Bentley no chão.

“Ele está bem?”

Ela verificou. “Ele está respirando.”

“Ótimo.”

Seus olhos se estreitaram. “Não finja que se importa.”

“Sim, eu me importo.”

“Foda-se. Você ouviu o que aquela psicopata disse e agora acha que eu gosto de você. Eu não.”

“Não estou pensando nisso.”

“Você provavelmente já está tentando arrumar um jeito de usar isso contra mim. Puta que pariu, odeio gente assim. Manipuladores, duas caras—”

“Ei!” levantei a voz, interrompendo-a. Sirius rosnou para mim.

A Bitch apontou a minha própria faca na minha direção. “Sabe o quão mais fácil fica minha vida se eu me livrar de você?”

“Não fica. Você pode até tirar os Nine da sua cola por alguns dias, mas depois vai ter que encarar todos os testes sozinha. Acredite ou não, eu estou do seu lado. Quero ajudar você a passar por essa confusão.”

“Não enche o saco. Vai embora.” A faca não tremia.

“Não vou a lugar nenhum, a não ser que você venha comigo.”

“Ficar convencido porque acha que não posso te cortar. Esquece que posso mastigar você.”

Olhei para Sirius, garantindo que minha cabeça estivesse firme, para não dar qualquer sinal de hesitação ou dúvida.

“Se fosse para ferrar comigo, você já teria feito enquanto a Burnscar te ameaçava.”

“Não gosto de que me mandem fazer coisa alguma, então não, eu não teria feito.”

Duvido disso, pensei. Você não gosta de que um estranho diga o que fazer, talvez, mas aposto que poderia ser feliz se tivesse um ambiente estável e uma liderança consistente. “Se você fizer os testes deles e se juntar a eles, vão ficar mandando em você pro resto da vida.”

“Não ligo para o teste!” ela berrou. Vi Sirius ficar tenso, pronto para atacar. “Só quero que me deixem em paz!”

“Sei como é.”

“Você não sabe de nada!”

“Que se dane!” mexi um dedo na direção dela. “Talvez minha vida não tenha sido tão ruim quanto a sua, mas eu já passei por isso! Fui perseguido todos os malditos dias por pessoas que só queriam me deixar infeliz! Todos os dias ficava tão tenso que tinha vontade de vomitar no banho antes de sair para a escola, e tinha dores de cabeça antes do meio-dia! Passei semanas escondido no banheiro durante o recreio porque eles não paravam de me cansar!”

“Soa como uma obsessão. Posso te contar o que eu suportei.”

“Porque você perderia.” Ela cutucou a faca na minha direção, como se quisesse reforçar a frase.

“Porque isso aqui não é uma disputa, e sim, eu perderia. Estou tentando te dizer que somos mais parecidos do que você pensa.”

Ela bufou.

Caramba, minhas pernas e pés doíam. Minhas costelas também não estavam exatamente uma delícia. Sentia que tinha que fazer alguma coisa para distrair a cabeça. Se não fosse a dor nas pernas, eu teria vontade de caminhar de um lado para o outro, ou correr, ou algo assim. Eu tentei focar na Bitch. “Tudo bem, não acredita em mim. Então, aqui vão os fatos reais. Você faz parte do nosso time. Precisamos de você, e, quer você goste ou não, você nos precisa.”

Ela fez uma careta. “Eu—”

“Não diga que não. Não diga que daria para se virar sozinha. Você viu esses caras, e você não é estúpida.”

Ela olhou para Bentley, colocando uma mão na frente do focinho dele, como se fosse verificar se ele ainda respirava. “Tudo que você fala é só palavras. No fundo, só quer se proteger.”

Gostaria de ter algo para ter acertado, algo que pudesse jogar. Me contentei com um gemido furioso. “O que é preciso para te convencer!? Por que você não consegue entender que eu já me arrisquei por você? Que, apesar de toda confusão entre a gente e tudo que passamos, você é minha amiga?

“Você não é minha amiga,” ela disse sem olhar para mim ao falar.

“Tudo bem! Aceitei isso. Mas você é minha amiga, mesmo que eu não goste de você metade do tempo. Você é minha companheira de equipe. Somos semelhantes. A única diferença é que você passou pelo seu caos anos atrás, e eu só consegui lidar com o meu algumas semanas depois de entrar nesse time. Nós trilhamos caminhos iguais. Quer goste ou não, somos espíritos afins. Ambos lutamos com a questão social—” enrolei.

A Bitch reagiu a algo que eu tinha dito quase no final, virou de um lado, quase—

Suspirei. Isso não está levando a lugar algum. Olhei para o meu território. As plumas de fumaça tinham tornado o céu de um cinza-escuro, algumas brilhando fracamente de laranja com a luz refletida das chamas. Faíscas ocasionais flutuavam pelo ar, vindas de uma das fogueiras que queimavam ao redor de uma esquina próxima.

Ela quebrou o silêncio que sobrava, “Coil me falou que as pessoas me deixariam em paz se eu ficasse poderosa o suficiente. Se tivesse aliados, dinheiro, se assustasse meus inimigos o bastante.”

“Quando foi isso?”

“Antes de eu entrar para os Undersiders. Ele não me disse quem era. Deixou um telefone com alguma grana, depois me ligou um tempo depois. Porra, palavras que pareciam boas. Aprendi a lição.”

Ela passou anos sozinha, na rua, só com a companhia dos cachorros, fugindo sempre que um policial ou super-herói a perseguia. Eu quase quis perguntar se ela tinha tido um aumento na quantidade de problemas antes de chegar na Brockton Bay. Problemas que poderiam ter sido provocados por algum supervilão ambicioso?

Não, essa não era a hora.

“Você sabe que entrar para os Nine seria exatamente o oposto disso. Não é um poder que te deixa em paz. É uma vida sendo perseguida constantemente, sempre na companhia de pessoas dez vezes mais manipuladoras e duas caras do que você acha que eu sou.”

“Eu sei,” ela cuspiu.

Ela pegou Bentley e ajustou o grip, tocando o focinho dele com uma mão.

Que se dane. Hora de ir direto ao ponto. Dei um tempo para ela se acalmar, depois falei: “Eles mataram seu cachorro, machucaram o Bentley, mataram minhas pessoas e destruíram minha área. Quero acabar com esses filha da puta, sem limites, e vamos precisar da sua ajuda se quisermos conseguir. Esquece de ficar na defensiva, eu—”

“Você me convenceu na hora, sem limites,” ela rosnou, levantando-se do agachamento.

Não ousei abrir a boca, com medo de irritá-la e ela mudar de ideia. Apenas assenti.

Juntos, voltamos cambaleando para minha toca. Cada passo era uma dificuldade. Onde o Grue e eu havíamos apoiado um ao outro, a Bitch não me ofereceu nada. Isso me incomodou um pouco; poderíamos ter andado no Sirius se tivéssemos cooperado para ajudá-lo a carregar, mas aparentemente essa opção não estava nos planos.

Minhas formigas encontraram a Genesis a alguns quarteirões de distância. Ou melhor, elas encontraram algo que se assemelhava a uma mistura entre um caracol e um coelho. Minhas formigas identificaram dois olhos bulbosos, dois tentáculos ou orelhas flexíveis e um corpo que grudava no chão. Os insetos em cima da água podiam sentir a água correndo para cima e para os lados do caracol. Uma pequena boca jorrava jatos de água nos incêndios de um prédio próximo dela. Eu supus que era a Genesis. Suposição bem fundamentada.

Um dia desses, eu ia confundir alguma coisa estranha e achar que era ela, só para ficar surpreendido de maneira desagradável.

Desenhei palavras e símbolos com as formigas. Logo depois, o fluxo de água parou e a consistência do corpo dela começou a se desmanchar. Ela estava voltando.

A Charlotte tinha levado as crianças embora, então minha toca estava vazia enquanto entrávamos. A Bitch avaliou a área e foi para o banheiro pegar a caixa de primeiros socorros.

“Quer ajuda?”

Ela me olhou com um olhar de ódio. Já tinha a resposta.

Subi as escadas e tirei o manequim, que tinha a maior parte da fantasia pronta. Depois, tirei as botas de chuva e comecei o processo torturante de me despir da fantasia que usava. Tinha adiado a inspeção dos danos para poder procurar a Bitch mais cedo.

Remover a máscara não foi difícil, mas destrancar a armadura e tirar os braços das mangas fizeram minhas costelas doerem. Um hematoma novo estava por cima do antigo, negro e roxo sobre um roxo-esverdeado. Precisei pausar para recuperar o fôlego antes de começar a mexer nas pernas.

Estava usando collants impermeáveis por baixo do traje, e ao pensar no fato de ter andado na água suja com as feridas expostas, senti uma pontada de medo. Peguei o kit de primeiros socorros que trouxe, da minha mala, e achei um par de pinças. Restos de plástico derretido do collant grudados nas rasgaduras e nas bordas da queimadura. Com calma, fui removendo os fragmentos pretos, cavando onde precisasse. Cada área que limpava, desinfetava. A maior queimadura cobria meu calcanhar direito, o topo do pé e metade da panturrilha, mas os dedos estavam de boa. A outra queimadura atingia o tornozelo esquerdo, o calcanhar e uma área pequena, que cobri com a mão na canela. Haviam menos danos, mas mais esfiapamentos de spandex derretido cobrindo a ferida. Se eu tivesse queimaduras de segundo grau, estariam ali.

O desinfetante quase fazia barulho ao tocar minhas feridas. Apliquei generosamente, depois peguei a gaze e o creme antibiótico.

Doía tanto quanto os efeitos persistentes da granada de dor da Bakuda, mas também tinha a consciência de que levaria uma eternidade para cicatrizar. Não poderia usar leggings justas na área ferida.

Filhas da puta. Essa dor era nada comparada ao que eles fizeram com minhas pessoas. Quantas tinham perdido pais, entes queridos, amigos? Lares? Nem podia reclamar comigo mesmo sem sentir culpa.

A Genesis foi a primeira a chegar no andar de cima, carregada por uma de suas imagens controladas à distância, uma representação grosseira de um homem que a colocou numa cadeira e depois desapareceu quando ela acordou.

“Não consegui apagar nenhum dos grandes incêndios,” ela disse. Para alguém que tinha dormido quatro quintos do dia, ela parecia exausta.

“Obrigada por tentar.” Peguei as cortadoras de arame e tentei cortar as costuras internas da fantasia queimada. Cada aperto rendia só meia polegada de material cortado.

“E agora?”

“Já planejei um esquema básico com o Grue. Ele entrou em contato com os outros. Eles devem chegar em breve, e todos vamos discutir o plano juntos. A Tattletale não acha que a Burnscar volte tão cedo, mas coloquei fios de teia de aranha através da área, só por precaução.”

“Um plano?”

“De ataque. É mais fácil esperar até todo mundo chegar antes de explicar, assim não tenho que repetir muitas vezes. Talvez até seja melhor, já que a Cherish está de olho e tenta ler minhas emoções para entender o que estamos planejando.”

Ataque?”

“Ser cuidadoso e ficar na defensiva não está nos levando a lugar algum.”

“Mas nos mantém vivos.”

Revirei minha fantasia e examinei. O progresso estava lento demais. Deixei as cortadoras de arame de lado, peguei o isqueiro de plástico na minha partição de utilidades e comecei a queimar o interior das calças, da marca que fiz até o entrepernas, voltando pelo outro lado, apagando qualquer fagulha que pudesse ainda estar acesa. Estava quase finalizando quando finalmente respondi: “Acho que não. Ainda estamos morrendo. Só que mais devagar. Você consegue me dizer com sinceridade se vamos sobreviver a mais duas confrontos assim?”

“Quer ser mais agressivo? Morrer rapidinho?”

“Sim ao primeiro, não ao segundo. Olha, eles são bons porque são experientes. Jack faz isso há anos. Ele sabe exatamente qual equilíbrio precisa manter, para ser imprevisível e ao mesmo tempo inteligente o suficiente para não sermos pegos de surpresa.”

“Mas você quer tentar. Pegar eles de surpresa, quero dizer.”

“Exatamente.”

“É suicídio. Quais são as chances de você passar da terceira rodada? Se temos uma chance de cinquenta por cento de morrer numa luta, isso dá, o quê, uma em oito?”

“Você manda melhor em matemática do que eu. Certo. Mas não vamos lutar de frente. Me diga, qual é o limite das suas habilidades?”

“Na verdade, não há limites. Se fizer sentido, se for auto-sustentável, com órgãos e fonte de energia, fica mais fácil pra mim. Não preciso me esforçar tanto. Formas maiores e mais densas são mais desgastantes também.”

“E materiais? O que você pode usar para montar um corpo?”

“Eu… não sei. Consigo controlá-lo, mais ou menos, mas meu poder escolhe por mim. Visualizo enquanto uso minha habilidade, fico fora de mim e entro naquele estado de quase sono, quando sua mente começa a divagar. Qualquer coisa que eu não tenha feito com firmeza na cabeça acaba sendo preenchida pelos pensamentos dispersos e imaginações. Nunca investi muito esforço na matéria, a não ser quando quero algo como armadura ou pele de pedra.”

Algo ridiculamente poderoso. Se eu tivesse o poder dela… droga.

“E habilidades especiais? Você consegue dar elas às suas criações?”

“Tenho que visualizar o mecanismo, os órgãos, ou o que for que faz tudo funcionar. Tenho um tempo limitado antes de desmaiar, então esse tempo que gasto nisso é o que fico sem trabalhar em outras coisas. Como o corpo que acabei de usar, você não viu, mas—”

“Vi sim.”

“Certo. As formigas, né. Bem, visualizei o sistema de sucção de água e a metralhadora de água, mas como não foquei no corpo, ele não tinha braços ou pernas, era lento, e por não ter órgãos vitais, me drenava.”

“Ok.” Segurei meu traje com as pernas e pés em frangalhos. Olhei para uma caixa atrás da minha cadeira, escondida sob uma prateleira de terrários. Uma enxurrada de baratas levantou ela e levou até mim. Dentro, restos de tecido e máscara deixados na primeira retirada do Mannequin. Eu não quis desperdiçar material.

“Por que está perguntando?”

“Só tentando avaliar os recursos que temos à disposição.”

Genesis mexeu as mãos para mudar sua posição na cadeira. Olhei para suas pernas. Estavam finas. Atrofia. Ela usava cadeira de rodas há um tempo. Quando levantei o olhar, ela percebeu que eu tinha olhado.

“Se tiver uma dúvida, prefiro que pergunte do que ficar pensando.”

Senti meu rosto esquentar, e rapidamente voltei minha atenção para o tecido do meu antigo traje. Usei as baratas para fazer um remendo no chão, usando os retalhos rasgados. Minhas aranhas se deslocaram dos terrários para começar a juntar as peças. Não precisava ficar bonito.

“Realmente. Pergunte.”

“Você ficou tetraplégica por causa da sua habilidade? Um efeito colateral, ou algo que aconteceu com a fantasia?”

Ela balançou a cabeça. “Estou na cadeira desde os quatro anos. Não, na verdade, acho que é o contrário.”

Contrário? Meu primeiro pensamento foi evento disparador. O segundo foi, talvez aquela ideia de que as pessoas ficam mais fortes se recebem os poderes com idade jovem seja verdade, afinal.

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