Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 128

Verme (Parahumanos #1)

Ela não conseguia se livrar da ideia de que aquilo era uma farsa. Três vezes, quase virou as costas e voltou para casa.

A vinte e oito milhas ao oeste de Nova York, pela rodovia 202, onde havia mais árvores do que casas e os caminhos faziam anos que não recebiam manutenção, ela seguia em direção ao interior. Não tinha chovido recentemente, mas havia poças turvas na pista onde a água havia se acumulado em amplas depressões.

Água espirrava enquanto ela deliberadamente dirigia em direção a uma poça. Quarenta e cinco minutos de viagem, tentando convencer a si mesma de que aquilo era real, sem ver ninguém na estrada nos últimos dez minutos, ela começou a se sentir perdida. A ação concreta de direcionar o carro para a poça e obter o resultado esperado parecia ancorá-la.

Cada ação tinha uma reação igual e oposta. Era assim que as coisas deviam funcionar. Ação e consequência.

Dirigir até o meio do nada era a ação. Mas qual seria a consequência? Desperdiçar duas horas do seu tempo em um dos últimos fins de semana de liberdade antes de começar a escola? Por uma chance de talvez obter o que precisava?

Ela precisou parar e recuar para reler um número num correio. 2062. Ela guiou pelo longo caminho de terra. Ao longe, havia uma fazenda com um silo de grãos apodrecido e um celeiro próximo.

E se aquilo não fosse só para perder seu tempo? E se fosse algo mais sinistro? Se uma gangue de homens estivesse esperando por ela, pronta para arrastá-la para algum lugar…

Ela balançou a cabeça. Sabia como se defender. Seu pai tinha lhe ensinado, e ela havia feito aulas. Eles não necessariamente poderiam saber que ela era mulher pelo endereço de e-mail. Deixou uma nota com sua colega de quarto, lacrada com instruções para não abrir ou ler os detalhes a menos que ela não retornasse para casa. E, para completar, o colar que usava tinha um GPS embutido. Um presente do seu décimo sexto aniversário, dado pelo pai. Se precisasse de ajuda, a nota que deixou com a colega de quarto tinha instruções para contatar seu pai e rastreá-la usando o colar.

Ela parou perto do celeiro e ficou no carro por um minuto, observando ao redor para ver se alguém estava por perto, o motor funcionando lentamente. Um minuto se passou até que ela se sentisse segura o suficiente para não ser emboscada e colocou o carro na marcha lenta. Segurou a chave como se fosse uma arma enquanto saía do carro. Não a segurou entre os dedos como um amador faria, mas segurou como se fosse uma faca.

O celeiro era o destino final do percurso que o e-mail descrevia para ela. Vazio. Cheirava a estrume velho, feno apodrecido e mofo. A parte externa tinha tinta vermelha descascada.

Verificou o relógio. Estava oito minutos adiantada.

Não havia outros carros na propriedade. Isso significava que tinha oito minutos para alguém descer a estrada, cheia de rachaduras, buracos e poças, passar pelo caminho de terra e encontrá-la na fazenda.

Seu peso oscilava de um pé para o outro, enquanto sua impaciência se manifestava na inquietação. Oito minutos até descobrir se tinha sido enganada ou não.

Usou os sapatos para chutar algumas pedras soltas da estrada de terra, alisou a superfície e as chutou para fora. Descalça, colocou os pés na largura dos ombros, flexionou os joelhos como se estivesse sentada numa cadeira, esticou os braços à sua frente para equilibrar-se. Abaixou-se, endireitou o corpo, e repetiu o movimento várias vezes.

Respira fundo.

Mesmo centrada, começou na próxima postura, colocando os pés perpendiculares um ao outro, transferindo o peso de um para o outro, do calcanhar para a ponta do pé e vice-versa.

Seu relógio digital interrompeu os exercícios com um bip constante. Ela tinha programado um alarme para o horário da reunião. Agora mesmo, deveria estar encontrando alguém.

E não havia carro à vista.

Suspirando, humilhada, colocou os sapatos, abriu a porta do carro e se preparou para partir. Não comentaria isso com ninguém.

“Vai embora? Depois de vir até aqui?” A voz era feminina, com sotaque francês sutil, mas o inglês provavelmente era melhor que o dela.

Ela virou-se, deu uns passos à frente do carro para olhar dentro do celeiro.

Havia uma mulher ali, de pele escura, com cabelo curto, mais prático do que estiloso. Vestia um jaleco de doutora e segurava uma prancheta de plástico branca com as duas mãos.

Nunca foi isso a coisa mais surpreendente.

Em um ponto perto do meio do celeiro, não existia mais celeiro algum. Piso de azulejos brancos e paredes pintadas de branco se estendiam ao fundo, e o teto todo de vidro escondia uma distribuição suave de luzes fluorescentes que faziam tudo brilhar de forma uniforme.

“Quem é você?”

“Alguns me chamam de Mãe, mas é uma brincadeira de mau gosto. Os mais profissionais me conhecem como Doutora.”

“Eu sou-”

“Sem nomes. Já investigamos você, sabemos muito do que precisamos, mas acho que há um grande valor simbólico em manter sua identidade anônima. Escolha um nome, e eu usarei durante toda a reunião. Não precisa ser definitivo ou duradouro.”

“Tá. É pra ser um nome falso comum mesmo, ou um codinome ou…?”

“Qualquer um.”

“Jamie.” Era o nome que os pais pensavam em dar para a sua irmã mais nova. Eles se separaram antes disso acontecer.

“Jamie então. Venha. Tenho uma funcionária que está transferindo essa seção do meu escritório para cá, mas isso desgasta ela, e será menos demorado de volta se não a sobrecarregarmos.”

Jamie olhou por cima do ombro para o carro. Acreditava que o GPS ali não seria de muita utilidade, supunha. Era preciso confiar no acaso.

Ela apressou-se e aproximou-se da Doutora, cruzando a fronteira do solo de terra compactada e feno mofado até o chão de azulejos limpos.

Um vento forte soprou, e o entorno virou-se violentamente por dois ou três segundos. Quando a imagem se resolveu novamente, estavam no meio de um corredor longo. Parecia um hospital, estéril, branco, limpo, mas vazio. Sem pessoas e sem equipamentos.

“Seja bem-vinda ao Cauldron,” disse a Doutora.

“Como me achou? Eu recebi só um e-mail.”

“Tenho que conferir meus registros. Nós temos maneiras de localizar interessados. Se bem me lembro, você passeava por sites, pesquisando formas de adquirir armaduras e armas feitas por tinkers?”

Jamie confirmou com a cabeça. “Sim. Tantas eram falsas ou golpes que não quis confiar nas que pareciam legítimas.”

“Nós controlamos vários desses sites. São todos falsos. Talvez tenhamos notado sua atividade lá pela primeira vez.”

“Isso dá uma certa creepy.”

“Creepiness é uma realidade triste quando você precisa operar de forma clandestina, sem uma clientela fixa.”

“Por quê? Por que não tornar isso público?”

“Países entrariam em guerra pelo que temos a disposição. Uma maneira de dar poderes a quem desejar. Criariam exércitos de soldados parahumanos. Mesmo se conseguíssemos nos estabelecer como uma entidade neutra, sem interferência governamental, o Cauldron seria infiltrado por quem quisesse roubar nossos segredos. Espiões, ladrões.”

“E pessoas querendo criar uma concorrente?”

Estavam chegando ao fim do corredor. A Doutora sorriu discretamente. “E isso. Por favor, por essa porta.”

Jamie se orgulhava de sua habilidade de detectar evasivas e mentiras. Ela tinha a impressão de que a Doutora estava sendo condescendente ao responder sobre empresas rivais. A ideia não parecia preocupá-la. Por quê?

Ela passou pela porta aberta e entrou numa sala grande. Como no corredor, a decoração era predominantemente branca. Uma mesa de mármore branco com uma cadeira de couro branca, e duas cadeiras de plástico frente à mesa. Um monitor pequeno de um lado, com um teclado compacto na frente e sem mouse. O espaço era austero.

Louca seria aqui. Não há personalidade neste lugar.

Mais estranho ainda era a falta de poeira. Desde sua chegada, Jamie só tinha visto a Doutora. Como ela mantinha tudo tão limpo?

“Sente-se.”

Jamie acomodou-se numa das cadeiras de plástico.

“Vou explicar antes de começarmos. Quero estabelecer expectativas. Quase tudo aqui pode ser ajustado aos seus gostos. Mas a rotina padrão do Cauldron é uma reunião presencial. Discutiremos seu orçamento, sua situação e seus objetivos, e depois faremos uma seleção de um catálogo para encontrar algo que caiba no seu bolso e provavelmente entregue os resultados desejados. Há um período de espera de dois meses, durante o qual farei alguns testes: alguns relacionados às suas condições físicas, outros psicológicos.”

“Psicológicos? Para garantir que eu não pire e vá virar vilã quando ganhar poderes?”

“Esse não é um problema. Embora sua pergunta indique que você espera ser uma heroína?” A Doutora falou numa frase de meio-questionamento, meio-afirmação.

Jamie franziu o cenho. “Espere, você dá poderes às pessoas que querem ser vilãs?”

“Damos poderes a qualquer um que pague. Mas, se quiser parar agora por uma pontada de consciência, podemos garantir que você seja devolvida ao celeiro em breve.”

Jamie hesitou, depois balançou a cabeça. “Tudo bem.”

“Os testes envolverão análises de sangue, exames de estresse, ressonância magnética, tomografia, radiografias e sequenciamento de DNA Torsten. Essas análises servem principalmente aos nossos fins, e, se preferir, seu médico pode fazer ou solicitar esses testes por uma pequena taxa. Uma taxa maior permite que você dispense completamente esses testes.”

Taxas e despesas adicionais. Não. Os testes não eram tão importantes assim para ela gastar seu dinheiro neles.

“Você pode fazer os testes do jeito que preferir,” disse Jamie.

“Ótimo. Preciso ser franco: o Cauldron mantém uma política de sigilo rígida. É grosseiro da minha parte avisar, mas, se revelar qualquer coisa sobre o que aconteceu aqui, temos meios de descobrir, e s todo mundo tomará medidas de contenção. Isso vale mesmo que você decida não assinar nada.”

“Medidas de contenção?”

“Nossa resposta dependerá da gravidade da infração. Temos clientes que investiram centenas de milhões de dólares nos produtos e serviços que oferecemos. É nossa obrigação protegê-los.”

“Que tipo de medidas? Você me mataria?”

“Tentamos evitar assassinatos, não só pelos motivos morais, mas porque atrairiam atenção. Para vazamentos, nossa prática é desacreditar a pessoa envolvida e usar a divisão interna de parahumanos para escondê-la, tirar seus poderes ou ambos.”

Evitar mortes. A frase indicava que a Doutora ou o Cauldron já tinham ido longe demais antes. Ela não gostava disso, e, especialmente, não gostava da maneira como a Doutora falava, como se ela não percebesse esse detalhe se não estivesse atenta.

“Tudo bem. Não pretendo descumprir regras.”

“Poucos o fazem. Mas fiz minha parte e avisei. Conte-me sobre você, Jamie. Sei que seu pai trabalha na polícia.”

“Sim, é detetive.”

“Tem alguma relação com por que você está aqui?”

Jamie fez uma expressão de desconfiança e desviou o olhar. “Sim.”

“Me conte.”

“Um ano atrás… Bem, tudo começou há dois anos. Havia dois criminosos chamados Ramrod e Fleece. Os heróis locais os capturaram, parcialmente por causa do trabalho do meu pai em rastreá-los. A Lei do Três Crimes se aplicou ao Fleece, e o Ramrod foi preso por homicídio com dolo. Eles foram colocados em células especiais, tiveram uma audiência, e tudo parecia normal. Meu pai reuniu provas, fez alguns acordos com informantes para testemunhar anonimamente, e assim por diante. O processo na Justiça é bem mais longo do que na TV.”

“Muito mesmo.”

“Finalmente, depois de quase um ano de audiências e uma apelação menor, foi decidido. O par tinha que ir para o Cativo. Até aí, tudo bem. Mas alguém os libertou.”

“Acho que estou começando a entender.”

Jamie mordeu o lábio por um segundo. Só de pensar nisso, ficou irritada. “O nome dele é Madcap, e ele é um mercenário especialista em libertar presos. Às vezes até mesmo quando eles já estavam na escolta, a caminho do Cativo. E isso é… errado. Não é assim que a coisa deveria funcionar. Meses ou anos de investigação, policiais e heróis valentes arriscando a vida para prender alguém, um ano de julgamento, e tudo o que leva é um idiota com poderes para soltá-los?”

“E você passou o último ano tentando achar uma forma de comprar poderes, com a intenção de corrigir essa injustiça?”

“Eu quero parar ele. E não só ele. Quero fazer as coisas voltarem ao normal, mesmo que signifique jogar sujo, porque eles jogam sujo. Crime deveria ter consequência.”

O Doutor digitou algo no teclado, pausou, e digitou mais um pouco. “Madcap. Bem, a boa notícia é que ele não é um de nós, então não há conflito de interesses. A má é que o PRT o classificou como um atacante nível sete.”

O rosto de Jamie assumiu uma expressão séria. “Sei. Meu pai tem recursos. Eu dei uma olhada nas fichas do Madcap.”

“Depois de pesquisar suas finanças-”

“Tenho um imóvel na cidade que deixei para mim. Meu pai não sabe, então posso vender sem problemas, sem ninguém próximo ficar curioso para onde foi o dinheiro. O mercado imobiliário diz que posso vendê-lo por cerca de três quartos de milhão de dólares. É só vender.”

“Podemos acelerar esse processo. O Cauldron está disposto a comprar a propriedade por setecentos e trinta mil dólares, alugando para você enquanto necessário. Vamos vender sem esperar por um comprador.”

“Não preciso que aluguem para mim. Não, isso funciona,” disse Jamie, secretamente aliviada por ter resolvido uma das maiores dificuldades tão facilmente.

“Ótimo.”

“E tenho mais cinco mil que meus parentes guardaram para meus estudos. Seria mais difícil usar, pois levantaria suspeitas, mas está lá.”

“Vamos ver. Quanto ao valor, o Cauldron exige que dois terços do total sejam pagos adiantado, e o restante ao longo de seis anos ou inadimplência.”

“Ou seja, vocês usam essas medidas de contenção que falou.”

“Revogação de poderes, no pior cenário, sim.”

“Essa revogação faz parte do processo de transferência de poderes ou é algo que uma de suas cape s internas faz?”

A Doutora digitava no computador. Sem tirar os olhos da tela, ela respondeu: “A segunda. Você não precisa se preocupar com alguém aproveitando uma brecha no processo para tirar suas habilidades.”

A Doutora franziu o rosto diante do gráfico no computador.

“O quê?”

A Doutora virou o monitor, mostrando gráficos e tabelas que pouco faziam sentido para Jamie. Ela pigarreou, inclinou-se sobre a mesa e estendeu uma unha bem feitada para apontar uma série de labels num gráfico tridimensional. “Este é o valor ‘P’ relacionado ao custo do poder, com a faixa esperada de poderes. O valor do seu dinheiro, mesmo considerando uma parcela adicional de trinta e três por cento para pagamento futuro, provavelmente não será suficiente para obter o poder necessário para enfrentar um atacante nível sete.”

O rosto de Jamie caiu. Confusa, perguntou: “‘P’? E o que quer dizer provavelmente?”

A Doutora abriu uma gaveta e pegou uma pasta. Deslizou-a pela mesa.

Cada página era laminada, etiquetada com um número de série. Cada uma tinha uma foto de um frasco com um líquido metálico de cor diferente, ao lado de uma lista de poderes. Na metade inferior da página ou na segunda página, dependendo do número de poderes, havia uma grade com um código numérico atribuído a uma combinação de letras.

“Nenhuma amostra garante os mesmos poderes toda vez. Os marcadores destacam exemplos dos poderes adquiridos quando a amostra foi testada em um humano ou cliente. Geralmente, há um fio condutor ou tema comum entre os poderes de uma mesma amostra. Uma amostra pode, por exemplo, ter tendência a trabalhar com a produção de ácidos e manifestar-se de forma física. Isso poderia permitir que alguém se transformasse numa poça de ácido viva, secretasse ácido pelos poros ou cuspisse jorros de veneno corrosivo.”

“Eu não quero um poder desse tipo.”

“Não. Para começar, o valor ‘R’ da amostra J-zero-zero-noventa é muito baixo. Veja as letras na grade. As mais importantes são ‘O’, ‘P’ e ‘R’. Sozinhas, elas determinam cerca de noventa por cento do custo de uma amostra. ‘O’ refere-se à singularidade do poder. É subjetivo, e sujeito a mudanças por fatores fora do controle do Cauldron, mas fica mais fácil se destacar como herói ou vilão se ninguém mais puder fazer o que você faz.”

“Você já mencionou as outras duas letras de passagem.”

“O valor ‘P’ é o efeito bruto das habilidades concedidas. Uma estimativa da classificação que o PRT atribuiria aos poderes. Quanto maior ‘P’, mais eficazes e versáteis eles são.”

Jamie assentiu. “E ‘R’?”

“Infelizmente, como já mencionei, não há garantias. Uma mesma amostra não fornece os mesmos efeitos toda vez que é testada. Existem riscos envolvidos no uso do nosso produto. Algumas vezes há mudanças físicas que não podem ser disfarçadas. Você já viu heróis ou vilões com olhos que brilham ou feições menos humanas.”

Isto era preocupante.

“O valor ‘R’ indica o quão previsível uma amostra é. Algumas produzem resultados bastante simples e confiáveis. Em sessenta e três testes com a amostra T-zero-seis-zero-zero-um, só falhou duas vezes em conceder uma forma de voo. Em contraste, a amostra B-zero-zero-trinta concedeu, em quatro testes, a habilidade de fazer as coisas explodirem, criou um vácuo potente na boca de alguém, atraindo tudo para um portal por onde tudo era imediatamente destruído. A amostra B-zero-zero-trinta matou os outros dois voluntários.”

Matou. Havia uma possibilidade de ela morrer, se escolhesse a errada ou tivesse azar demais.

“Como vocês testam isso? Vocês fazem muitos testes, sessenta para uma amostra só, mas não há como as pessoas não perceberem ou que essa informação não vazasse se vocês fizerem algo assim.”

“Como viu, o Cauldron tem recursos.”

“Isso não responde minha pergunta de verdade.”

“Responde sim. Só não tão claramente quanto você gostaria.”

Algo no tom da Doutora sugeria que ela não iria explicar mais. Jamie fechou a boca, franzindo um pouco o cenho.

“Como pode ver aqui, este gráfico mostra a relação entre o custo e os valores crescentes de ‘P’, ‘O’ e ‘R’.”

Era um cubo dividido em inúmeros cubos menores, com ‘P’ no eixo X, ‘O’ no eixo Y e ‘R’ no eixo Z. Variava do branco ao azul celeste, ao azul mais escuro, roxo, vermelho e, por fim, vermelho carmesim. A legenda na parte inferior indicava que qualquer coisa além do azul escuro custaria vários milhões de dólares. Quando alcançava o vermelho, já chegava na faixa de centenas de milhões.

“Isto… é o que você pode pagar.” A Doutora apertou uma tecla e o gráfico foi reduzido às cores branca e azul claro. “Você teoricamente poderia chegar à faixa sete de ‘P’, para alcançar o nível do Madcap em termos de potência bruta, mas isso significaria abrir mão de muitas características das outras duas categorias. Seus poderes seriam relativamente simples, padrão, semelhantes aos de muitos outros heróis… e com a pontuação baixa em ‘R’, você arriscaria receber algo que não deseja. Mudanças físicas, talvez, ou habilidades fora do seu objetivo. Força sobre-humana, por exemplo, quando na verdade queria telecinese.”

“Eu… não tenho uma preferência por poderes específicos. Algo voar seria ótimo, mas qualquer coisa que funcione serve.”

A Doutora pressionou uma tecla, e o gráfico moveu-se, deixando apenas três faixas. Ela removera os exemplos com maior valor de singularidade.

“Então, a questão é…” disse a Doutora, “quanto você está disposta a arriscar? Um herói pode vencer um inimigo superior com estratégia, tática e antecipação, e tenho a impressão de que você tem cabeça suficiente para isso. Talvez prefira priorizar confiabilidade do que potência?”

“Pode ampliar um pouco?”

A Doutora fez o que pediu.

“Então… quão imprevisível é uma ‘R’ de cinco, se estamos falando de ‘R’?”

“Se você escolher uma amostra com uma pontuação ‘R’ de cinco, eu diria que não posso fazer promessas. Há uma chance de uns três a quatro por cento de você experimentar algumas mudanças físicas indesejadas. Uma chance de zero ponto cinco por cento de mudanças tão sutis que, mesmo usando roupas pesadas, você não chamaria atenção ao sair de casa. Você não estaria comprando um poder específico, mas uma categoria mais geral daquele poder. Para usar o exemplo anterior, não estaria comprando cuspir ácido, especificamente, mas um poder de ácido.”

Jamie olhou as outras linhas no gráfico. “E eu teria uma ‘O’ por volta de três e uma ‘P’ de cinco?”

“Algo nessa faixa, sim.”

“Com uma classificação de poder de cinco, perto do sete do Madcap,” Jamie colocou os braços sobre a bancada e apoiou a cabeça nas mãos.

“Existe a chance de você ter sorte e obter um poder com um valor ‘P’ maior do que o esperado.”

Mais uma vez, aquela tentativa de dissimular. Jamie balançou a cabeça. “E há uma chance parecida de eu ter azar, já que é uma média.”

“Verdadeiramente, sim.”

“Existe alguma outra coisa que eu possa fazer? Uma maneira de conseguir melhores resultados?”

“Temos opções, mas não sei se se aplicam ao seu caso. Mencionei antes os testes psicológicos. Você precisa saber que a personalidade, o estado mental e a história de vida da pessoa influenciam bastante no resultado do poder. Eu diria que são fatores primários, fora o próprio exemplo.”

Jamie pensou momentaneamente sobre como seu estado mental poderia afetar seus poderes.

A Doutora seguiu: “Temos um pacote chamado ‘Modelagem’, e outro chamado ‘Morpheus’. Ambos são feitos para aproveitar o período de espera de dois meses e ajudar o cliente a alcançar um estado mental e emocional ideal. É bastante procurado por nossos clientes mais endinheirados, para refinar os poderes desejados e evitar efeitos indesejados. Para um cliente de nível mais baixo, como você, talvez isso não seja necessário. Você compraria uma amostra de menor qualidade e pagaria pelo pacote… talvez se quisesse poderes recreativos, por exemplo, garantir que conseguiria voar.”

Jamie assentiu.

“Tem o programa ‘Nêmesis’, mas você já tem um adversário em mente, e acho que você está mais interessada em uma luta justa do que em ter um inimigo que sabe que será vencido facilmente.”

“Pois é.” Esse programa Nêmesis… quantos heróis ou vilões famosos já haviam feito confrontos falsificados ou montados assim?

“Hum. Nada mais vem à mente sobre nossos pacotes. Quando criamos algum recurso ou programa adicional, normalmente é para clientes mais ricos.”

“Vocês fazem muitos testes. Posso ajudar nisso? Ou fazer algo fora dessas opções?”

“Talvez.”

“Serei sério, sou trabalhador, mantenho minha postura.”

“Nossa política geralmente exige que o cliente esteja disposto a fazer um favor não especificado para nós numa ocasião futura. Pode ser uma tarefa simples ou uma semana de serviço. Assim, cobrimos nossas bases sem revelar demais nossos procedimentos.”

“Muito Padrinho. Esses favores envolvem fazer alguma coisa ilegal?”

“Às vezes. Mas nem sempre. Pode ser uma reunião, passar uma mensagem, ajudar a controlar um vazamento de informação, uma demonstração de força para assustar alguém que mexe demais nas coisas.”

O pé de Jamie mexia nervoso enquanto ela olhava para a tela. “E?”

“Se você concordar em fazer três favores no futuro, acho que podemos até oferecer um desconto.”

A Doutora apertou várias teclas, e o gráfico se expandiu um pouco em todas as direções. Onde antes era apenas branco e azul claro, agora mostrava cubos de azul escuro.

“O que me pediria para fazer?”

“Ainda não sei. Prefiro deixar essa opção em aberto.”

Tudo no interior de Jamie dizia que havia alguma mentira ou manipulação ali. Ou a Doutora sabia exatamente o que ela ia pedir, ou percebia que a cliente não gostaria do que ouviria.

Seja o que fosse, ela só podia esperar fazer o bastante de bem para compensar seus possíveis erros.

“Tudo bem,” disse Jamie. “Fechado então.”

A quarta visita de Jamie ao Cauldron foi menos fora de caminho do que a primeira. Entrou pelo mesmo local, mas desta vez o corredor do Cauldron foi transplantado para o meio do apartamento dela. Sem perder tempo, atravessou.

A Doutora não a esperava, mas Jamie sabia exatamente para onde tinha que ir. Caminhou pelos corredores limpos e vazios, passando por portas iguais, sem janelas, sem vislumbre do mundo exterior.

Mesmo assim, tinha certeza de onde estava. Checou os dados do GPS no colar. Costa do Ivory, na África Ocidental. Informação perigosa de se ter.

Se eu tentar abrir uma dessas portas, ela estará trancada? O que teria lá dentro? Ou as sirenes disparariam, estragando tudo aqui?

Ela esteve aqui duas vezes desde a primeira reunião. Ambas, fez os testes psicológicos e um exame completo. O psiquiatra era um homem branco jovem, o médico, um grego forte. Disseram pouco além do necessário e não deram detalhes sobre o Cauldron.

Caminhou até a sala onde fez o teste de esforço físico. Aqui, tinha corrido de um lado para o outro com velocidades crescentes até não aguentar mais. Descansou, correu novamente, várias vezes, até não conseguir sequer se manter de pé.

A Doutora a esperava. Uma urna de metal estava numa mesa, ao lado, uma cadeira reforçada e acolchoada.

“Você está pronta?” perguntou a Doutora.

Jamie confirmou com a cabeça.

“Se trocar por essa roupa, podemos conservar suas roupas para o caminho de volta para casa.”

Jamie pegou a roupa — um macacão cinza simples, que cobria tudo da cabeça aos pés. Tinha a palavra ‘Jamie’ em letras pretas no peito e ‘Cliente’ nas costas.

Não havia um vestiário, e a Doutora focava na urna e na pilha de papéis que ela colocava na mesa. Jamie se trocou ali mesmo, dobrando as roupas e colocando na borda da mesa.

“Sente-se.”

Jamie sentou na cadeira. Confortável.

“Amostra T-1177, com a adição combinada de amostra C-072. Está correto?”

“Sim. É o que paguei.”

“Leia e assine aqui. E há cláusulas nas páginas vinte e seis e vinte e nove que também precisam de sua assinatura.”

Jamie leu o contrato. Era tudo o que haviam combinado, jurídico e com advertências polidas sobre o inferno que o Cauldron poderia colocar sobre ela caso quebrasse o acordo. Havia páginas de recibos das transações financeiras, e mais páginas com detalhes das avaliações médicas e psicológicas.

Havia duas cláusulas, uma para os três favores e outra para os testes psicológicos.

Nove anos atrás, ela tinha sido sequestrada para usar como *força de barganha* contra o pai. Ficou em cativeiro por três dias, sem comida, com apenas seis garrafas d’água e sem banheiro. Ela foi ao banheiro num canto, tirou um meia para evitar que o xixi escorresse pelo chão inclinado de madeira.

Ela garantiu ao psiquiatra que havia superado o trauma e o medo do escuro decorrente disso. Foi seu pai quem teve mais dificuldades com o episódio.

Ela era jovem naquela época, e aquilo não tinha ficado na memória dela de verdade. Mas não conseguia esquecer que o sequestro poderia ter deixado alguma sequela, influenciando o procedimento.

“Você não comeu?”

“Nada desde ontem à mesma hora.”

“Tá com resfriado, dores ou febre?”

“Não.”

“Que pena. A amostra que usamos para controlar os efeitos dos produtos finais tem efeito regenerativo de curta duração. É um dos diferenciais que oferecemos aos hospitais e similares. Alguns se recuperaram ou melhoraram de deficiências de toda a vida. Existem relatos de pessoas que estavam doentes quando ganharam poderes, e nunca mais adoeceram. Seria bom verificar isso.”

“Você não podia ter me contado antes?”

“Provavelmente, é efeito placebo. Não vale mudar a agenda. Você está confortável?”

“Sim.”

A Doutora destravou a tampinha da ampola e retirou um vial. Era do tamanho de uma caneta, com o diâmetro de um dedo dela. “Quanto mais rápido beber, mais rápida e limpa será a transição.”

“Falou algo sobre uma missão de sonho?”

“Algumas pessoas experienciam. Outras, não. Não se preocupe se você não experimentar. Apenas relaxe dentro do seu limite, e mantenha o foco. Quanto mais reações físicas fortes, como aumento de batimento cardíaco, suor, adrenalina e emoções, maior a chance de mudança fisiológica. Recomendo que não pense demais em coisas estressantes ou memórias ruins. Mantenha-se calma, relaxe o máximo possível.”

“Não é como pedir para alguém não pensar em um elefante azul? Vai pensar nisso assim mesmo.”

“Falo isso, porque apenas uma pequena porcentagem de pessoas sente estresse suficiente para sofrer alguma mudança física.” A Doutora retirou a tampa do vial cuidadosamente e entregou na mão de Jamie, segurando até ter certeza de que ela tinha firmeza na pegada.

Jamie segurou o vial por vários momentos longos. “Agora?”

“Quando estiver pronta.”

Ela o virou, como costuma fazer quem toma dose de destilado forte. Tossiu ao sentir a substância grudando na garganta, a saliva pouco ajudando a engolir. A Doutora estendeu a mão, e Jamie entregou o vial.

Começou a queimar, a intensidade aumentando segundo a segundo, até ela achar que não poderia ficar pior. E piorou.

“Dói,” ela gemeu, tentando se levantar.

“Vai ficar mais forte antes de melhorar. Fique na cadeira.”

“Não te contei,” ela mal conseguiu falar, a sensação de que seu peito ia colapsar era insuportável.

“Não quis te alarmar antes. É normal, e melhora. Um ou dois minutos, e você ficará surpresa com a rapidez em que a dor passa.”

Ela segurou firmemente os braços da cadeira. Como tinha sido horrível há segundos, a dor só piorava. Era preciso suportar mais dois minutos? Sentia como se o fogo no interior dela estivesse derretendo paredes da garganta e do estômago. Podia imaginar os tecidos bolhas e se dissolvendo, se expandindo até tocar os pulmões e o coração.

À medida que parecia consumir seus pulmões, sua respiração acelerou, tornando-se rápida e superficial, sem oxigênio suficiente. A escuridão começou a invadir sua visão pelos limites.

“Relaxe.” A voz da Doutora soava distante.

Entrou em pânico, e a própria ideia de estar apavorada piorava, porque poderia significar que ela iria se transformar. Poderia ficar diferente. Escamas, espinhos, pele metálica ou outra coisa.

A sombra engoliu sua visão e ela sentiu que começava a se espalhar por sua pele.

Por que tinha que fazer isso?

Tenho que me acalmar.

Ela tinha começado a praticar Tai Chi aos treze anos, uma das atividades recomendadas por psicólogos para lidar com o estresse. Não conseguia se mover ali, nem ficar em pé, quanto mais fazer os exercícios, mas tentou alcançar aquele estado mental. Inspirou fundo, mas não sabia se tinha ar nos pulmões ou se estava respirando. tensionou os músculos dos dedos e dos pés, depois forçou a relaxar. Fez o mesmo com as mãos e os tornozelos. Trabalhou subindo por todo o corpo, focando na ação simples de tensionar e relaxar.

A dor não cessou, mas ela se sentiu desconectada. Mais calma, concentrada. Sensação de estar flutuando num espaço vazio, ciente de cada parte do seu corpo, de sua plenitude, e de mais nada.

Uma imagem incoerente passou por sua mente: um cenário de formas biológicas retorcidas que mudavam a cada segundo, se transformando em algo completamente diferente. Um arco de ossos se desconectando e formando uma ponte sobre uma fenda. Depois, uma colina. Mas tudo parecia se alterar com uma lógica — uma lógica ela não conseguia compreender.

O chão se abriu. Fendas rasgaram a superfície, dividindo tudo… e

Outra imagem: Terra. Era como se ela estivesse vendo cada rosto, cada objeto, cada criatura viva ao mesmo tempo, de todos os ângulos, e então olhasse para outro rosto, outro objeto. Logo percebeu que não era ela quem fazia essa visão. Era uma espectadora. Antes que pudesse entender o que o outro buscava, a cena mudou novamente.

Escuridão total e silêncio. Só na calma dessa pausa, ela percebeu uma corrente subjacente. Uma impressão. Hesitou para chamar aquilo de emoção.

Era uma sensação de alcançar. Era a única palavra que tinha para descrever, embora não fosse exatamente adequada. Uma ação que era simultaneamente frustrada e frustrante.

A dor desapareceu tão rapidamente que ela achou que tinha imaginado.

Ela estava no chão, de mãos e joelhos. Lágrimas escorriam pelo rosto. Nem todas por causa da dor. Algumas por empatia.

“O que foi isso? O que acabei de ver? Não foi sonho. Não foi o que você descreveu.”

“Metade dos meus clientes faz perguntas parecidas com as suas logo após a transição. Eu sempre digo a mesma coisa: não sei.”

Mesmo atordoada, Jamie sentia que a Doutora mentia.

“Acho que você vai lembrar melhor se não tentar segurar a memória com força demais.”

O que tinha acabado de ver não parecia mais importá-la. “Eu… me tranformei? Meu corpo é diferente?”

“Você brilhou por um instante, mas passou. Você parece igual a antes.”

Jamie confirmou com a cabeça, cansada demais para se sentir aliviada.

“Vou embora agora, por segurança. Recomendo que tome um tempo para descansar antes de fazer mais qualquer coisa. Quando estiver pronta, levante-se e tente exercitar suas novas habilidades.”

A doutora já caminhava até a porta quando Jamie mudou de posição, preparando-se para sentar na cadeira. Um alívio percorreu seu corpo. Ela não virou monstro. Não perdeu a cabeça. Era real. O que tinha visto, era tão profundo que não poderia significar outra coisa. Nem mesmo uma dose de LSD daria a ela visões tão claras. E ela certamente não tinha tomado LSD.

Mesmo sem tontura, ela percebeu que lhe faltava equilíbrio para ficar de pé, e inclinou-se para frente. Num instante, tudo pareceu se encaixar. Sentiu como se estivesse flutuando, em câmera lenta, ao invés de caindo, com seu corpo pulsando de energia. Estendeu um braço para a maçaneta da cadeira para se segurar, mas subestimou a velocidade e força daquele movimento, naquele mundo de movimento lento. A cadeira voou, escorregou pelo chão. Ela caiu duro, o momento acabou, sua queda deixou de ser lenta.

Do outro lado da sala, a cadeira bateu na parede e se quebrou.

“Parece que você tem algo aí. Parabéns,” disse a Doutora.

Madcap atingiu com força uma das vans de contenção do PRT, fazendo-a girar. O motorista da outra tentou desviar, mas Madcap entrou no caminho do veículo. Ele o acertou, e o carro quase ricocheteou nele, o capô amassando como se tivesse batido num poste.

Ele movimentou os ombros, deu uma chute no veículo. Este deslizou pela estrada e colidiu com o terceiro caminhão, que já estava parado.

E assim, restava apenas libertar seus protegidos.

“Parou!”

Madcap virou-se. Jamie estava no meio da rua, de postura desafiadora. Seu traje barato era um macacão preto e uma máscara de onça.

“Você é bonitinha. Bom corpo, e o visual é uma mistura de patético com fofo, tipo cachorrinho de três patas. Mas não tente me impedir. Eu bato pesado.”

Ela ficou constrangida ao ouvir a menção ao traje. Não tinha grana após comprar seus poderes. Ainda assim, cachorrinho de três patas?

Madcap, por outro lado, vestia uma fantasia personalizada que não devia ter saído barato. Uma máscara que cobria a metade inferior do rosto, com um sorriso amplo pintado. Pintura preta ao redor dos olhos escuros, realçando o branco, e um boné de couro preto pontudo conectado à máscara e ao traje. Sua armadura mais estética que funcional, com pads largos e com espinhos.

“Eu bato forte também,” respondeu Jamie. Um olhar por cima do ombro revelou que os dois homens que guiavam a van de contenção mais próxima estavam fugindo. Ela sabia que aquilo era uma isca.

Ela puxou com força a peça do para-choque e a usou como um taco gigante contra Madcap.

Ele a bloqueou com uma mão, e o pedaço de metal escorregou de suas mãos, indo parar no milho próximo.

Depois, deslizou para frente, bateu com a palma da mão contra o peito dela. Ela saiu do chão e caiu de bruços. Antes de tentar levantar-se, percebeu que era inútil.

Dois soldados do PRT avançaram para tentar spray nela espuma, mas ele destruiu ambos com um lançamento de algo que parecia um frisbee grosso. Sem ninguém para detê-lo, Madcap começou a arrancar portas das vans de contenção até encontrar seus prisioneiros.

Jamie tentou se mexer, mas a dor era tão grande que nem conseguiu se mover.

“Não,” disse Madcap. “Deixa ela.”

Ela abriu os olhos e viu dois vilões, um homem e uma mulher, de pé perto, enquanto Madcap estava entre eles e ela.

“Ela parece um bom pedaço,” comentou o homem.

“Não digo que não,” respondeu Madcap, “Mas mãos longe. Vocês pagaram para eu liberá-los, e não dá pra fazer isso se ficarem brincando.”

“Chato,” disse a mulher de brincadeira. “Vamos.”

E desapareceram. Jamie deixou a cabeça descansar na calçada.

“Meu poder não funcionou. Eu era forte, e depois simplesmente não era mais.”

“Haverá nuances,” disse a Doutora. “Podemos ajudar você a entender melhor sua habilidade. Mas isso vai custar.”

“Tudo aqui tem um preço.”

“Tenho outra ideia.”

“Outra ideia?”

“Considere isto seu primeiro favor: o Cauldron gostaria que você entrasse para os Dós e, assim que possível, passasse a fazer parte do Proteção.”

“O Proteção? Por quê? Para sabotar de dentro? Roubar informações? Não quero nada disso.”

“Só entre. É só isso que peço. Pelo menos assim, você teria recursos e treinamento para desenvolver seus poderes e alcançar seus objetivos.”

Jamie franziu a testa, olhando para a própria mão com luva. Já tinha pensado em se juntar a eles de qualquer jeito. Isso facilitaria uma pendência, seria relativamente seguro, e ela tinha suas razões. Mas tinha certeza de que o Cauldron tinha um motivo forte para querer ela lá.

“Nona rodada, cachorrinho?” Madcap disse. “Talvez você consiga ganhar uma!”

Jamie partiu para cima dele, e o restante do time seguiu logo depois.

Madcap pulou de lado enquanto Legend disparava feixes de energia nele. O vilão invadiu e atravessou o muro de concreto da prisão, e Jamie só deu uns passos atrás dele. Viu-o contornando uma esquina e partiu atrás.

Ele não estava no corredor. Nem mesmo os destroços de onde tinha rasgado uma parede ainda existiam.

Ela ativou seu poder. O tempo pareceu desacelerar conforme ela acelerava. Seu olhar virou-se para cima e ela o viu pulando por cima de sua cabeça. Ele tinha encadeado a força do salto, buscando passar por ela ao redor da curva.

Menos ela, que era mais rápida e tinha força maior. Se tivesse chance.

O cotovelo dela acertou-o enquanto ainda estava no ar, sem tempo de esquivar-se. Ela o bateu contra uma parede e, com um chute no impulso, tentou se equilibrar enquanto a força do seu poder ainda atuava.

Madcap ricocheteou na parede como se fosse de borracha e se esquivou por baixo do chute. Girando enquanto se levantava, agarrou-a por trás, no mesmo instante em que seu pé tocou a parede. Com força, jogou-a ao longo do corredor.

Calma. Ela precisava manter a calma, concentrar-se. Mesmo em pleno voo, deixou sua energia se acumular, e liberou. Com meio segundo de efeito, ela contorceu-se para tocar o chão com um pé e, com um pequeno impulso, girou em direção ao solo. Abaixou-se em uma posição de agachamento, deslizando com a força do impacto, e começou a se preparar para uma nova investida.

As armas laser de Legend atingiram o ponto onde Madcap tinha estado meio segundo antes. O vilão correu na direção de Jamie, cada passo mais rápido que o anterior.

“Bateria! Parar ele!”

Ela manteve o foco. Respirou fundo.

Com um pé à frente, Madcap mudou de direção, indo direto através da parede. A parede de gesso explodiu ao redor dele.

Ela soltou sua energia, e por alguns segundos, sentiu-se poderosa, quase invencível, e acima de tudo, rápida. Correndo, atravessou duas paredes na perseguição. Ao emergir da segunda, ficou a poucos metros de Madcap.

Ele virou-se e tentou bloquear seu golpe ou segurá-la.

Mas ela não lhe deu essa chance. Em vez disso, liberou toda a força acumulada numa só investida, puxando o metal de uma cadeira próxima. Ela caiu, escorregou e ficou na trajetória dele. As pernas de metal agarraram as dele, uma deslizando sob o seu pé que descia — ele tropeçou. Usando seu poder, fez a cadeira amassar-se e explodir antes que ele continuasse tropeçando e caísse.

Ouviu uma breve risada do homem ao se virar para fugir.

Legend aproveitou aquela pausa para posicionar-se. Acertou o vilão com uma rajada de laser. Madcap caiu, levantou os pés e correu para se esconder. A rajada seguiu na direção dele, fazendo-o cair no chão. Legend disparou novamente. O homem ficou inconsciente.

“Bela jogada, Bateria.” Legend falou sorrindo. “Finalmente, hein?”

“Finalmente,” ela respondeu.

“Não quero ir pro Cativo,” disse Madcap, todo coberto por espuma de contenção da cabeça aos pés.

“Você cometeu cerca de cem crimes,” respondeu Legend. “Acho que não tem muito pra onde fugir.”

“Crimes, sim, mas não matei ninguém, e isso deve valer alguma coisa. Pode ser só uma ideia, mas e se eu trocar de lado?”

“Fala sério,” replicou Battery.

“Tô falando sério, cachorro. Vocês precisam de mais gente na rua, eu não quero ir pro Cativo. É bom pra todo mundo. Eu sou forte.”

“Você passou quase seis anos virando a justiça do avesso por causa de outros,” ela disse.

“E agora eu posso reparar isso!” Tiraram a máscara dele, mas o sorriso verdadeiro era quase mais zombeteiro que o que estava na máscara.

“Você passou os últimos cinco anos e meio tirando gente do Cativo, dizendo que era contra aquilo, e agora quer trabalhar pra colocá-los lá?”

“Talvez você tenha me mudado. Aquela sua aparência, seu jeito, sua insistência, mesmo com tantas derrotas na minha mão.”

Battery olhou para Legend. “Não diz que a gente não pode algemar ele?”

“Infelizmente, não. E ele tem uma ideia interessante.”

“Vai fugir se tiver chance.”

“Tem opções. Aparelho de rastreamento, ou talvez o Myrddin coloque alguma medida contra ele.”

“Tô dentro de tudo isso,” disse Madcap, lançando um olhar de relance para Battery. Sorrindo, disse: “Mas quero umas concessões.”

“Concessões? Você… seu idiota. Você devia ficar feliz só por estarmos até considerando essa ideia idiota.

“Acho que você vai achar razoável,” disse Madcap, mais para Legend do que para Battery.

“Vamos ouvir.”

“Acho que isso funciona melhor se eu assumir uma identidade nova. Novo traje. Meus poderes são versáteis demais para alguém desconfiar. Assim, não tenho inimigos ou clientes paranoicos do passado querendo me pegar.”

“Dá pra arrumar.”

“E quero entrar no time dela,” disse Madcap, apontando para Battery. Sorriu. “O cachorrinho vai pra uma cidade nova, eu vou junto.”

“Nem pensar,” respondeu Battery.

Por quê?” perguntou Legend.

“É engraçado,” disse Madcap. “Vai tirar ela do sério, e eu tenho um pouquinho de maldade comigo. Se não canalizar, não vai dar certo. Só me dá isso, e eu juro que me comporto feito menino boazinho.”

“Menino boazinho? Vai se comportar direitinho?” perguntou Legend. “Isso é mais que uma simples liberdade condicional.”

Não.” respondeu Battery.

Sempre.” respondeu Madcap.

Não,” replicou Battery, apontando o dedo para Legend. “Sou uma heroína de respeito. Meu histórico é impecável, trabalhei horas extras, fiz tudo que ninguém quer fazer, aquele trabalho no escuro, na madrugada, quando nada acontece. Isto é uma punição.”

“Você tem razão,” suspirou Legend. “Seria um peso para uma heroína de verdade. Então, fica por sua conta. Decida se Madcap entra ou não no Proteção. Não vou julgar se disser não.”

“Mas você acha que eu devia dizer sim.”

“Acho, se isso nos fortalece no longo prazo.”

Battery olhou para Madcap, e o vilão lhe deu uma expressão exagerada de emburrado, com olhos grandes e lábio inferior empinado.

“Porra,” ela disse. “Você vai aparecer no papel como quem decide, Legend, e vai aceitar a culpa seder ruim.”

“Isso é justo.”

“Sim!” Madcap sorriu.

“Já morri e fui pro inferno,” murmurou Battery. Era tudo que ela tentou evitar ao se tornar heroína. Um vilão que se livrava da justiça que lhe cabia. Mas ela sabia que era pelo bem maior. Precisávamos de mais heróis por aí.

“Já tenho até um nome em mente para minha identidade de herói de traje. Vai gostar, cachorrinho.”

“Vai ter que parar de me chamar assim,” advertiu ela, “Ou sua identidade de Madcap vai logo se tornar pública, rápido.”

Madcap coçou o queixo. “Quem sabe. Concordo em parar, se você aceitar meu nome.”

Ela soltou um suspiro. “Já sei que vou odiar isso.”

“Você vai amar. Assault. Entendeu?”

Demorou um segundo para compreender. “Não!”

“Não? Mas é perfeito. A gente vai ser um casal! As pessoas vão saber na hora do primeiro ouvido.”

“As conotações são horríveis! Não! Você não pode mudar o significado do meu nome assim!”

“Tudo bem, tudo bem. Entendido. Puppy.”

Battery olhou para Legend. “Posso talvez conseguir um aumento, por suportar tudo isso?”

O líder do Proteção cruzou os braços. “Algo pode ser arranjado.”

“Pode ser um café,” disse Assault. “Ou uma cerveja após uma noite de patrulha. Nada de muito estressante.”

Baixo estresse? Você esquece que vou passar mais tempo na sua companhia do que devia.”

“Amor, você precisa relaxar. Você é muito rígida, e eu tenho certeza que você não teve namorado nem namorada nos dois anos em que trabalhei com você.”

“Para de insinuar que eu gosto de mulheres, Ass.”

“Bem, você insiste, e fica me deixando confuso — será que tenho chance com você?”

“Tô ocupada demais, e mesmo se eu quisesse namorar, pode ter certeza, você seria a última escolha aqui.”

“Que machucado!” Ele colocou uma mão no peito. “Olha, sou como um cavaleiro de armadura brilhando agora.”

“Mais parecido com um lobo disfarçado de ovelha.”

“Au-rooo.”

Miss Militia parou na porta. “Precisa de resgate?”

“Se pudesse acertar uma bala entre os olhos dele, eu devia uma pra você.”

“Não posso fazer isso.” Miss Militia fez uma careta de desculpas. “Mas você tá bem, né?”

“Tô, obrigada.”

Miss Militia seguiu seu caminho, e Assault sorriu. “Ao ouvir ela, parece que cada segundo comigo é tortura.”

“Ai, você ia se surpreender,” respondeu Battery. Ela virou-se, encheu sua xícara de café e terminou o restante na jarra. Assault entrou e começou a preparar a próxima. Seria um gesto simpático, se não fosse o sorriso satisfeito dele.

“Vamos lá. Me dá uma chance. Me diz o que é preciso pra passar uma noite na sua companhia. Peça que eu traga uma estrela na palma da mão, ou destrua um Endbringer, e eu faço.”

“Você só ia usar um truque e me entregar uma estrela de plástico, ou vencer um Endbringer num jogo, e ainda assim tentaria me atormentar mais.”

“Então, pensa numa outra coisa. Qualquer coisa.”

Battery deu um gole no café. “Qualquer coisa? Armsmaster tava procurando voluntários pra um trabalho não remunerado numa escola. Já me candidatei.”

“Você faz todas essas besteiras,” ele cruzou os braços, “seria louvável, se você não estivesse se esforçando demais. Parece que quer compensar um erro por algo que acha que fez.”

A expressão de Battery mudou um pouco.

O sorriso de Assault desapareceu. “Sério mesmo?”

Ela balançou a cabeça. “Não. Nenhum erro, de verdade ou de mentira.”

“Mas a sua expressão agora —”

Ela o interrompeu. “Se você vier comigo nessa missão e falar alguma coisa para as crianças, posso até pensar em sair pra almoçar com você algum dia.”

“Excelente!” Ele sorriu, todo animado.

Ele saiu andando, parecendo que tinha ganhado na loteria.

Ela sorriu. Se ele soubesse que aquilo era uma chance de uma vingança limpa e inocente, adoraria. As escolas de barra de gel e gritaria, todas puxando e lutando, pedindo para mostrar poderes e fazendo perguntas sem parar.

E ele teria que aguentar tudo isso.

Ela ia aproveitar muito.

“…Peguei ele no flagra, pessoinha biônica…

Snip! Snap! Snip! As tesouras cortam;

E Conrad grita — Ah! Ah! Ah!…”

Assault lia do livro de poemas, e cada uma das noventa crianças ao seu redor estava inclinada para frente, com os olhos arregalados.

“Ele é tão bom com crianças,” sussurrou a bibliotecária.

“Claro que é,” respondeu Battery. Talvez houvesse um leve amargor na voz dela, porque a bibliotecária olhou estranho para ela.

Ela forçou um sorriso falso para disfarçar a desconfiança.

“…Ambos os polegares estão finalmente fora!” terminou Assault.

As crianças gritaram, assustadas, num som de horror e prazer misturado.

Pé no saco, ela pensou. Se fosse aquele, todos estariam chorando.

O telefone de Battery vibrava. Ela se despediu da bibliotecária e olhou a tela.

Cliente quer produto entregue por parahumano conhecido. Pacote na sua casa. Segunda tarefa. -c

O Cauldron enviara para o telefone do Proteção? Para um número só o Proteção tinha? Isso significava algo?

Ela apagou a mensagem. Era fácil de resolver. Se o destinatário fosse vilão no futuro, ela pararia, colocaria na prisão. Era só uma entrega.

Assault olhou para ela e um sorriso de canto se abriu. Enquanto a menina no colo dele lia o próximo poema, ele parecia confiante. Sabia exatamente o quanto isso a irritava.

“Idiota,” ela murmurou.

Mas, mesmo assim, um sorriso também se abriu em seu rosto.

O vidro da pequena janela na porta da frente dela tinha sido quebrado. Caiu sobre os pés quando ela empurrou a porta.

“Ethan!” chamou Battery.

“Você está bem,” disse Ethan, descendo as escadas. Ainda usando a fantasia, tinha um corte na face, só.

“Não sabia onde te achar, e como os celulares não funcionam mais, nem você estava na base, achei melhor vir aqui.”

“Sei. Pensei na mesma coisa, mas vim primeiro aqui.”

“Você está bem?”

“Tô bem, cachorrinho.”

Ela deu um soco leve no braço dele. Não resistiu quando ele a abraçou forte, com força demais, quase machucando.

“Vamos patrulhar,” disse. “Vai ser ruim. Estão nos chutando quando estamos no chão.”

“Certo. Vamos juntos ou separados?”

“Primeiro juntos, avaliar a situação.”

“Certo.”

“Um entregador trouxe isso para você,” ele apontou para um envelope pequenininho na mesa do corredor.

Ela viu a letra minúscula ‘c’ na frente e sentiu o coração apertar.

“Cachorrinho?”

Ela pegou o envelope, olhou o conteúdo: um pedaço de papel, em branco dos dois lados.

Uma brincadeira? Um lembrete? O último tinha sido há dois anos.

“Vamos lá,” ela disse, amassando o papel na mão. Ela se lançou, correndo, e Assault cruzou uma distância semelhante com seus saltos longos e fortes.

Ela cobriu mais espaço na ação de ir e vir, de carregar e correr, do que na corrida contínua, mas o progresso era lento. Assault, por sua vez, seguia em sua velocidade normal, avançando sem parar. Ela sabia que ele iria parar em algum ponto estratégico para esperar por ela.

Enquanto ela parava para recarregar, sentiu uma pontada na mão.

Era o recado?

Ela consumiu a energia da carga, mas não saiu correndo. Outra pontada. Aproveitou seu poder de manipular energia eletromagnética e focou na mensagem enquanto alisava o papel.

Um padrão apareceu: letras pretas simples. Quase ao mesmo tempo em que o papel começou a fumar. Ela tinha poucos segundos para ler e processar a mensagem antes que o papel pegasse fogo.

Siberian e Shatterbird devem escapar da cidade, e nossos negócios com você estarão concluídos. Obrigada. – c.

Os pedaços queimaruns voaram para a estrada ao redor dela, mas ela sentiu apenas frio.

Cada ação tem sua consequência.

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