
Capítulo 60
Verme (Parahumanos #1)
“Rendam-se”, ordenou Armsmaster.
“Não”, retrucou Grue.
“Você só vai se envergonhar se prolongar isso.”
“Estamos em cinco contra três de vocês, oito contra três se contar os cães”, respondeu Grue. “Consigo ver seu parceiro Velocity lá do outro lado, escondido.”
“Qual é a sua intenção? Admito, foi inteligente controlar o campo de batalha, ditar cada confronto para que acontecesse sob seus termos, e usar nossas próprias armas contra nós… mas essas armas não funcionam mais. Nenhuma delas funciona”, Armsmaster virou a cabeça para olhar onde Miss Militia tinha Regent à arma, com uma pistola em punho. “O que quer dizer que pode parar de tentar usar sua força contra mim, Regent. Tenho um aviso piscando no cantinho da minha HUD me alertando de qualquer tentativa sua. Configurei escudos psíquicos e empáticos para me proteger de você e da Tattletale.”
Olhei para Tattletale. Ele estava protegido psíquicamente contra ela? Como isso funcionava?
Então lembrei. Quando enfrentamos Glory Girl e Panacea, ela não tinha dito que lia mentes? E agora Armsmaster tinha informações erradas e achava que era imune.
“Eu não preciso ler sua mente”, ela disse, “Você é o único com escudos, então seus colegas de equipe e os integrantes do PRT não têm escudos psíquicos ativados, e posso lê-los para obter tudo que preciso. Você não é o melhor inventor, mas como a maioria dos tinkers, tem talento. O seu é condensar e integrar tecnologia. Funciona somente na sua presença, mas ainda assim, consegue colocar muito mais tecnologia num espaço do que devia. Como sua Lança-Gavião, por exemplo.”
Armsmaster franziu a testa. “Você está mentindo.”
Droga. Gostaria de ter podido dizer a ela que ele tinha um detector de mentiras embutido no capacete. Mas não podia, sem dar a entender que eu o conhecia.
Tattletale encarou com um sorriso, “Claro, mentiu na parte de leitura de mentes. Mas não mentiu sobre sua arma e seu poder. Vamos lá… pra lidar com meu amigo Grue, você transformou aquela coisa numa espécie de afinador sofisticado. Detectando vibrações no ar, traduzindo-as em imagens com aquele seu capacete de luxo?”
Grue estalou os dedos. Ele tinha entendido a mensagem. A escuridão não iria ajudá-lo muito. Armsmaster, por sua parte, segurou sua arma com mais força. Uma ameaça não dita a Tattletale.
“E a ponta daquela lança é usando o bronze entre as lajotas do chão para ajudar a transmitir uma carga elétrica ao redor de você, para fazer um chicote de energia e apagar insetos invasores. Você preparou isso antes de chegar aqui hoje, sabendo como o piso seria colocado?”
Ele não respondeu.
“Acho que não. Coincidência feliz que tudo que você montou funciona tão bem aqui dentro, hein.”
Novamente, sem resposta. Ela sorriu um pouco mais. Continuou, “Você consegue perceber que estou mentindo, né? Isso é demais.”
A arma de Armsmaster virou na direção geral dela. Ela não recuou.
“Assim, quando eu disser que sua equipe detesta sua cara, você vai acreditar. Pois eles sabem que você se importa mais em subir na hierarquia como o sétimo membro mais importante do Protetorate do que com eles ou com a cidade.”
Num piscar de olhos, a lâmina do halberd se quebrou em três pedaços, foi reconfigurada e disparou como um arpão de gancho em direção a Tattletale. Os dentes se fecharam, formando uma bola solta enquanto ela voava, atingindo-a firmemente na barriga. Ela derrapou até o chão, com os braços ao redor do abdômen.
A cabeça da arma recuou e voltou ao lugar no alto do bastão.
“ Bastardo”, falou Grue.
“Ao que parece, segundo seu colega de equipe”, respondeu Armsmaster, aparentemente indiferente.
Reuni meus insetos, posicionando-os perto e acima de Armsmaster, caso precisasse deles para agir rapidamente.
Armsmaster virou a cabeça na minha direção: “Skitter? Você, especialmente, não quer me irritar mais esta noite.”
A parte inferior de sua lança tocou o chão, e os insetos se foram. Olhei para o chão enquanto ele fazia isso. De fato, as lajotas largas tinham pequenas linhas de metal — bronze? — as dividindo.
Houve uma confusão na área onde Regent e Miss Militia estavam. Ela parecia ter deixado a metralhadora, e Regent aproveitou para se afastar. Não deu um passo antes dela recuperar o equilíbrio e dar uma rasteira baixa que derrubou as pernas dele. A metralhadora dela se dissolveu quando estava na metade do caminho, transformando-se numa cintilação de energia verde escura que se arcou de volta até sua mão. Ela se rematerializou numa faca de aço reluzente. Regent parou de resistir na hora em que ela pousou a ponta da arma contra o lado da garganta dele.
Armsmaster assistiu a tudo sem mover um músculo. Mesmo que não se importasse muito com seus companheiros, aparentemente confiava que Miss Militia se viraria sozinha.
“Grue. Você mostrou que consegue ignorar os efeitos do seu poder”, disse Armsmaster, “Faça isso agora.”
“De alguma forma”, retrucou Grue, “Não estou vendo uma razão forte para obedecer.”
“Olha, tenho uma faca na minha garganta, cara”, apontou Regent.
“…Não vejo uma razão forte”, repetiu Grue.
Regent soltou uma risadinha, “Cala a boca.”
Armsmaster assistia à troca de forma impassível, então falou, sério: “Olhe por esse lado. Se houver testemunhas, a Miss Militia vai ter muito mais dificuldade de convencer que ela te apunhalou no pescoço em legítima defesa.”
Ele olhou na direção do seu segundo de comando, e Miss Militia deu um pequeno aceno de cabeça em resposta.
Será que ela faria isso? Provavelmente não, eu suspeitava. Mas poderíamos arriscar? Essa decisão cabia ao Grue.
Grue olhou para onde Regent jazia. Depois de um instante, fez a escuridão desaparecer. A maior parte do povo na multidão estava agachada no chão, tentando resistir às picadas e escoriações da matilha. Os cães permaneciam nas bordas da sala, e Bitch estava montada em Angelica. Velocity, com seu uniforme vermelho, listrado de branco e com duas faixas formando um V no peito, não muito longe dela. Eu suspeitava que tinham começado a se enfrentar.
Encontrei Emma na multidão. O pai dela estava agachado sobre as duas, como se pudesse protegê-las de qualquer perigo, e a mãe dela a abraçava pelos ombros.
De algum modo, aquilo realmente me deixou irritada.
Armsmaster olhou na minha direção, “E os insetos.”
Relutante, afastei-os do meio da multidão. Coloquei os insetos voadores nas partes intactas do teto. Olhei para os insetos e solucei. Então, olhei de novo para Emma.
Isso realmente não era como eu queria que terminasse. Eu presa, minha jogada fracassada, Emma saindo de mãos vazias, com a família, amigos e nenhuma consequência pesada por toda a besteira que fez?
“Senhor”, falei, tentando parecer confiante. Será que Emma reconheceria minha voz? “Deixe-me verificar a Tattletale.”
“Você pode fazer isso assim que se entregar”, ele respondeu. Mudou sua postura, apontando a lança para o meu lado. Franzi a testa. Eu realmente não queria receber o mesmo tratamento que a Tattletale sofreu. Ou ele não faria isso na frente de todo mundo?
Meus olhos se deslocaram na direção da multidão, para Tattletale, que não parecia disposta a falar. Todos estavam concentrados na cena. Por que ele tinha ido até lá para reunir uma audiência? Será que eu poderia usar isso? O que ele tinha de tão importante sobre o Armsmaster, que tinha feito ela insistir nisso pra gente?
Reputação.
“Preciso ter certeza de que você não causou danos graves”, falei, com uma leve acusação na voz.
“Ela está bem.”
“Quero verificar por mim mesma”, afirmei, ficando de pé. Até onde eu posso forçar isso? “Por favor, ela estava se rendendo e você bateu com força.”
“Você está mentindo.”
“Que porra, ela não!”, Regent se intrometeu, “A Tattletale vem até você, pronta pra ser presa, e você dá um tapa nela, sua maldita lunática!”
Não ousava olhar para a multidão. Armsmaster era a pessoa de quem precisávamos tirar uma reação.
“Chega. Isso é uma mentira”, falou Miss Militia, com a voz elevada, talvez um pouco para alcançar toda sala.
“Por que acha que estamos tão relutantes em nos render, se esse é o tratamento que vamos receber!?” exclamou Regent, “Nem é como se estivéssemos totalmente fodidos!” Miss Militia moveu a faca para lembrá-lo de sua presença.
A cabeça de Armsmaster virou na minha direção. Essa era minha grande jogada. Como ele iria reagir? Se me denunciasse como traidora dos Undersiders, as pessoas acreditariam? Minha equipe acreditaria? Ou só prejudicaria ainda mais sua credibilidade? Ele não sabia que a Tattletale conseguiria perceber que era verdade.
“Miss Militia tem uma lâmina na garganta do meu colega”, interrompeu Grue, “Acho que está bem claro que vocês não vão poupar ninguém.”
Armsmaster virou para o colega, “Talvez uma arma menos letal fosse mais adequada.”
Miss Militia franziu as sobrancelhas, preocupada. “Senhor?”
“Agora.” Ele não admitia argumentos. Depois, para manter o controle da situação, virou-se para sua refém mais próxima.
Eu.
Estava deitada de costas e não conseguia recuar rápido o bastante para escapar, especialmente porque tinha que deslizar os braços fora das correias que prendiam o tanque com a espuma de contenção às costas. Ele apontou a arma na minha direção enquanto avançava em minha direção, a ameaça de atirar servindo para me manter sob controle. Olhei para Grue, mas ele estava paralisado, dois de seus companheiros à mercê dos maiores heróis da cidade. Tattletale lutava para se levantar, mas pouco conseguiu.
Acima de Regent, a espada cintilou e se transformou naquela energia preta e verde. Naquele momento, Regent atacou, puxando os joelhos ao peito, depois chutou para cima e de lado, atingindo com os calcanhares a parte superior do estômago da Miss Militia. Um segundo depois, empurrou as mãos na direção da clavícula dela.
A energia preta/verda da habilidade dela continuou a arfar ao redor dela, sem se solidificar, enquanto o conteúdo do estômago dela começava a vomitar violentamente pela boca, espirrando na faixa de tecido que cobria a metade inferior do rosto dela e transbordando no chão. Regent teve que rolar de lado para evitar ser banhado de vômito.
Aproveitei a distração e trouxe todos os insetos do cômodo até o teto, enviando a maior parte deles na direção de Armsmaster. Ele sacudiu o rosto para se livrar deles, depois levantou a arma. Eu corri para agarrar o cabo com as duas mãos antes que tocasse o chão, puxando-me pelo chão até me posicionar entre a arma e o chão.
Não parecia como eu achava que ia ser: a carga elétrica. Quando a ponta da lança tocou meu corpo, foi como se alguém tivesse jogado um punhado de cobras vivas no meu peito, que se contorciam ali, com um único fio atravessando a pele do meu braço direito e passando pelas pontas dos dedos. Não doía quase nada.
E os insetos ao redor de Armsmaster não morreram. Pouquíssimos, até, dos meus também não.
Sabia que a seda de aranha era isolante até certo ponto. Fiquei muito feliz por estar isolada suficientemente. Sério mesmo feliz que minha interferência fosse suficiente pra impedir que a energia conduzisse pela área e zappasse os insetos no ar.
“Hm”, murmurou Armsmaster, ao seu lado, fazendo um som de reprovação, “Não foi inteligente.”
“Bitch! Cães!” gritei, “Grue! Me cobre!”
De todas as ocasiões para cair na fala de cavernícola. Ainda assim, ele me cobriu com escuridão, junto com Armsmaster.
Quando Armsmaster conseguiu tirar a lança das minhas mãos, tinha vários insetos sobre ele, e dava para sentir que ele estava levando a ponta da lança com força contra o chão, afastando-se de mim. Meus insetos não morreram, continuaram a se estabelecer na pele exposta do rosto inferior dele, subir por baixo da viseira. A carga ou qualquer coisa que tivesse naquela talha de energia que controlava tudo não conduzia através da escuridão.
Antes que ele pudesse atacar, eu me afastei na direção oposta. Ficar perto de Armsmaster não era uma boa ideia, com meu poder funcionando à distância, e ele sendo o lutador de combate corpo a corpo. Senti-o se afastar, raspando os insetos do rosto e do nariz, indo para o outro lado da nuvem de escuridão para atingir o chão, acabar com as tropas de insetos e virar sua atenção para os cães que avançavam.
Não estavam nem dois passos fora da escuridão quando comecei a ver Velocity na minha frente.
Battery e Velocity eram do tipo velocidade, o que dava a eles a habilidade de se mover a uma velocidade absurda. Mas eles eram tipos muito diferentes de velocidade. Pelo que interpretei, por tudo que li na internet, em revistas e entrevistas, Battery podia se carregar e se mover em velocidades aumentadas por curtos períodos, como a Bitch aumenta os cães dela, mas concentrado em poucos segundos. Era uma mudança fisiológica, alterando a biologia dela e revertendo antes que causasse problemas para o corpo. O ato de se mover na velocidade que eles gerenciavam era uma tensão enorme. Poucos parahumanos no mundo eram capazes de fazer isso sem truques ou limitações, e Battery e Velocity não estavam entre eles.
Velocity, ao contrário, era mais como Shadow Stalker. Ele mudava estados, e apesar de não saber exatamente o que isso significava — se ele mudava parcialmente para outra dimensão ou alterava o tempo ou a física — sabia que aquilo o fazia mover-se muito rápido, sem precisar descansar como a Battery. Rápido demais para que minhas vespas pousassem nele, e aquelas que pousassem eram destruídas antes de poderem picar.
O problema, no entanto, era que, enquanto se movia assim, não atingia com força. Provavelmente pelo mesmo motivo de não quebrar ossos ao pisar no chão dez vezes por segundo ou se desgastar pelo atrito ou ficar sem oxigênio. Sua velocidade reduzia sua capacidade de afetar o mundo ao redor e de ser afetado por ele. Não podia bater forte, segurar ou mover coisas com facilidade. Uma perda de força proporcional à velocidade que podia alcançar.
Então, por mais que estivesse se movendo rapidamente, ser atingida por ele não era muito pior do que apanhar de uma criança de oito anos.
Problema é que ele me atingia muito. Suas percepções estavam aumentadas também, o que significava que tinha o luxo de, em seus próprios sentidos, ver meus movimentos, calcular o melhor lugar para acertar o próximo soco ou chute para me desequilibrar ou machucar. Era menos uma luta de socos e mais como estar numa ventania disposta a me derrubar.
Velocity me obrigava a recuar, tropeçar e, no geral, fazendo força para me direcionar para uma direção — em direção a uma janela aberta. Ou ele me empurrava por ela, deixando-me pendurada na beirada, incapaz de evitar minha prisão, ou eu desistiria ou deixaria que me derrubassem no chão, aí sim, a coisa acabaria. Uma vez no chão, ele continuaria a atacar até que outro capetinha me acabasse, ou desligaria o poder por um tempo para me dar umas cobradas com uma cadeira ou algo do tipo.
Do outro lado da sala, Grue lutava com dois dos cães e Bitch, enquanto um dos cães e Regent mantinham Miss Militia afastada.
Não dava pra vencer sozinho.
“Grue!” gritei. Fui atingida na boca três vezes antes de conseguir levantar um braço para impedir Velocity e falar de novo, “Preciso de cobertura!”
Ele me lançou um olhar e uma rajada de escuridão. Num instante, eu fiquei cega e surda, só com meus insetos para me orientar.
Mas Velocity tinha tido sua velocidade reduzida, e eu tinha minhas suspeitas de que não era só por ele precisar usar as mãos para me achar antes de atacar. Grue tinha dito que os poderes de Shadow Stalker eram de alguma forma menos eficientes na escuridão dele. Isso também se aplicava ao Velocity? Ou era só a resistência extra do poder do Grue versus o ar normal, junto com a baixa força de Velocity?
Meus insetos agora estavam se acomodando nele, estranhamente dando-me uma noção melhor de seus movimentos do que meus olhos, e eu os direcionava para não picar nem morder, dificultando que ele os encontrasse de cara. Começaram a se aglomerar nele, e de algum modo, isso parecia desacelerá-lo ainda mais.
A ofensiva foi suavizada, e ele não tinha mais tanta eficácia em me manter desequilibrada. Ele não conseguia ver com precisão minha postura para saber onde era melhor atacar, então consegui firmar os pés no chão. Fui duas vezes com meus punhos, mas meus golpes não tinham impacto. Algo no poder dele, suspeito, junto com sua velocidade, que o impedia de se lançar contra qualquer golpe.
Então, agarrei uma arma que ele não podia reagir: meu spray de pimenta, e direcionei um jato pra seu rosto. Depois, instruí os insetos que estavam sobre ele a picar e ferroar.
O efeito foi imediato e forte. Você nunca viu alguém surtar de verdade até ver um velocista enlouquecer. Ele caiu, levantou, cambaleou por uma cadeira, e na sequência já estava de pé, correndo atrás de uma mesa, procurando às cegas algo pra lavar os olhos. Senti-o desacelerar bastante, aumentando sua força para inspeccionar as xícaras e jarras.
Tinha insetos na mesa onde ele procurava, e o único líquido lá era vinho. Achei que, ao continuar procurando um alívio, ele se aproximou mais da mesa mais próxima de mim.
De fato, ele foi até lá e começou a procurar. Dei um passo longo para a esquerda, por trás de mim, e segurei com as duas mãos o cabo do bastão extensível de nylon. Como um taco de golfe, bati-o nas pernas dele, passando entre elas.
Minha ideia era dificultar a mobilidade dele, sem causar uma lesão definitiva, que poderia acontecer se eu acertasse o joelho ou a coluna. Além disso, os melhores designers do Proteterate criaram roupas de alta tecnologia, e qual herói masculino com roupa cara sairia de casa sem proteção na região íntima? Certo?
A menos que a ideia dele, ao ver Velocity cair, fosse ter abandonado a proteção para ganhar mobilidade e reduzir o atrito.
De qualquer forma, eu encontraria uma maneira de compensar isso depois.
Ele tentou resistir à minha tentativa de controlar seus movimentos, tentando me puxar para o lado dele, com uma força fraca, enquanto eu prendia seu braço esquerdo e perna direita com algemas de plástico duplas. Depois, prendi o braço direito dele na mesa, na minha frente. Velocity ficou inoperante, para todos os efeitos.
Por mais que cada célula do meu corpo clamasse para sair da escuridão e ver o que acontecia, fiquei ali, agachada, sentindo com meus insetos. Com suas pernas e corpos servindo de milhares de dedos, eu tinha uma noção da situação.
Desde que Regent tinha feito alguma besteira com Miss Militia, ele ficara de guarda com ela. Uma mão estendida na direção dela enquanto ela lutava no chão, vomitando agora, com os membros tremendo. Tattletale estava com ele, uma mão ainda no estômago, mas de pé, observando a multidão, procurando alguém que pudesse ajudar Miss Militia.
E isso deixava Armsmaster quase como o único. Exceto que 'só isso' não era a palavra certa. Bitch, seus três cães e Grue cercavam Armsmaster, e mesmo assim, eu tinha a impressão de que ele controlava a situação.
Ele tinha a cabeça de seu halberd novamente formando uma bola frouxa, e a corrente usada como gancho de escalada estava parcialmente estendida, para servir de, talvez, uma marreta. Via-se um impasse enquanto meus colegas permaneciam dispersos, a uma curta distância, fora do alcance da arma. Armsmaster, por sua vez, assumia uma postura de luta frouxa, segurando o cabo do halberd enquanto fazia a marreta girar em oito informal.
Brutus rosnou para sua presa, chegando a um passo de mais perto, e Armsmaster aproveitou a oportunidade. A corrente vibrou com um leve zunido e a marreta moveu-se com surpreendente rapidez, colidindo no ombro de Brutus. Pela reação de Brutus, eu pensei que tinha sido atingido por uma bola de demolição. Ou Armsmaster era muito mais forte do que parecia, ou havia algo na arma dele que dava um poder extra. Como ele era um tink, poderia ser qualquer coisa.
Armsmaster não parou em derrubar Brutus. Assim que deu a velocidade necessária para a bola ganhar impulso, virou a pega e atacou Grue, empurrando a ponta da arma como um taco de basebol. Grue escapou do ataque recuando e agachando-se, mas não conseguiu recuperar rápido suficiente para evitar a sequência. Armsmaster avançou, sem parar, batendo a ponta do cabo na direção do peito de Grue com força. Grue caiu com tanta força que quase ricocheteou, e foi empurrado com força contra o chão uma segunda vez quando Armsmaster acertou a barriga dele com a ponta do bastão.
Sem pensar, avancei para a escuridão, mas parei. Que ajuda eu poderia oferecer? O que poderia fazer diante de tudo aquilo?
A Bitch assobiou, chamando um dos cães, mas Armsmaster já reagiu, puxando o cotovelo contra a corrente para controlar a cabeça da marreta. Ele largou o cabo e agarrou a corrente, puxando a bola em sua direção, enquanto a pegava com a mão livre e girava em círculo fechado para manter o impulso da cabeça da marreta, que bateu com tudo na orelha de Angelica. A Bitch teve que recuar rápido, enquanto Angelica caía ao chão onde estava.
Sem olhar para baixo, Armsmaster colocou uma bota blindada sob o bastão enquanto ele rebatia no chão e depois chutou para cima, até o nível do peito. Ele segurou a arma numa só mão e puxou a corrente. A cabeça da marreta voltou a formar uma lâmina quando reconectou com o topo do bastão.
Dois cães e Grue no chão, tudo parecia fácil para ele.
Percebi então o que fazia Armsmaster ser superior a outros tinkers, mais que os inventores malucos de ciência e tecnologia. Não era a quantidade de treino que provavelmente tinha feito — era sua habilidade especial. Segundo a Tattletale, a capacidade de Armsmaster permitia montar tecnologia e fazê-la funcionar, mesmo sem limite de espaço, peso ou tempo. Outros tinkers tinham limitações de quantidade e recursos ao longo do tempo, mas Armsmaster? Ele tinha uma solução para cada problema que conseguiu imaginar, sem se preocupar com espaço, peso ou quantidade na cinta. E, com tudo isso, seu equipamento principal, sua armadura e Halberd, eram devastadores e totalmente confiáveis por si só.
Enquanto Armsmaster tinha as costas voltadas para ela, vi a Tattletale se mover discretamente, de lado.
Judas atacou de repente, e na mesma hora Armsmaster reagiu. Tattletale correu para o meio da multidão, puxando sua arma.
Olhei na direção de Armsmaster, e minha visão dele foi bloqueada enquanto Judas caía no chão entre nós. Por meio dos meus insetos, percebi que ele estendeu a arma na direção de Tattletale, senti o recuo do disparo enquanto a cabeça dele saía da corrente. O gancho pegou a mão dela com força suficiente para desviar a mira, e os dentes do gancho fecharam ao redor do braço dela.
Ele puxou a corrente ao mesmo tempo que a trouxe de volta, jogando Tattletale pelo chão. Os dentes a soltaram justo a tempo de ela ser jogada contra uma das mesas de coquetel. Armsmaster puxou a lança para controlar a trajetória do gancho ao retorná-lo, atingindo a arma de Tattletale no ar e destruindo-a em pedaços.
“Sem reféns”, disse, “Sem armas”
Grue tentou se levantar, caiu, mas conseguiu se pôr de pé na segunda tentativa. Os três cães que Armsmaster soltou estavam demorando a se erguer. Angelica balançou a cabeça violentamente duas vezes, parou, e repetiu o movimento.
Armsmaster olhou para Bitch, depois bateu sua arma na palma da luva de armadura.
“Rachel Lindt, também conhecida como: Hellhound.”
“Armsmaster, também conhecido como: tarado”, retrucou Bitch.
“Se isso continuar, não garanto que esses seus cães não sofram danos permanentes.”
Senti os olhos dela se moverem por trás das datas da máscara, olhando para Brutus de um lado e Angelica do outro. Então, ela olhou para ele e disse: “Se vocês causarem dano permanente em algum deles, a gente vai te encontrar e fazer dez vezes pior com você. Pode confiar, velho, eles sabem seu cheiro, dá pra rastrear você fácil.”
Mais uma vez, o toque metálico da arma contra a luva dele.
Ele falou de maneira calma: “Por que arriscar? Você já perdeu. Tenho vídeos o suficiente dos seus cães para montar uma simulação do padrão de luta deles. Sei como eles atacam, como reagem. Sei como você pensa na luta, os comandos que dá, quando dá. Tudo isso está embutido na minha roupa, na minha HUD. Sei exatamente o que vocês e suas bestas vão fazer antes de pensarem nisso. Nenhum de vocês vai sair daqui vivo.”
“Não sou só eu e os cães”, falou Bitch.
“Seus amigos? Talvez eu não tenha uma simulação pra ele, mas sou melhor que seu líder, Grue. Mais forte, mais blindado, melhor equipado, melhor treinado. Se seu amigo Regent desviar a atenção por mais de vinte segundos da Miss Militia, ela vai atirar em vocês, um ou todos. E ele mesmo, se se preocupar, não podia fazer nada comigo. Tattletale? Inconsciente. Skitter? Não ameaça.”
O que ele estava tentando? Por que estava tão fixado em fazer a Bitch admitir que tudo tinha acabado?
Reputação, de novo. Ele precisava salvar a situação, e a melhor maneira — recuperar suas perdas e sair parecendo bem — seria fazer a mais dura, mais perigosa e mais notória das nossas ameaças abaixar a cabeça e admitir derrota.
Porém, ele parecia não conhecer bem a Bitch.
Ela puxou a máscara de plástico barato e jogou de lado. Era mais uma formalidade, afinal, pois o rosto e a identidade dela já eram de conhecimento público. Seu sorriso, ao se espalhar pelo rosto dela, não era bonito. Tinha muitos dentes à mostra.
“Lung também subestimou ela”, disse, olhando pra mim.
Armsmaster olhou também, para ver.
Sério mesmo? Quero dizer, sério mesmo, Bitch? Passando a bola pra mim? Não tinha plano. Não havia muito o que fazer aqui.
“Velocity?” Armsmaster perguntou casual, como se não fosse uma questão importante.
Eu fiz um gesto de ombro, imitando o tom casual dele, mesmo me sentindo tudo menos confortável: “Resolvido.”
“Hm. Eu acho…”
Enquanto ele falava, olhei para Grue e virei a cabeça na direção de Armsmaster. Armsmaster não era idiota e aproveitou minha jogada como motivo para assumir postura de combate. Não tinha muito que defender, já que Grue envolveu a ambos em escuridão novamente.
A pior possibilidade — Armsmaster contando para os Undersiders o que eu planejava — foi por ora contornada. Duvido que ele continuaria falando sob o efeito do poder do Grue.
O problema agora era como lidar com ele. Os insetos na minha situação estavam se movimentando, vindo na minha direção enquanto ele atravessava a escuridão em minha direção. Pelo menos, se eu conseguisse afastá-lo dos outros, poderia ganhar tempo para eles.
Corri para a porta de vidro que levava a uma das áreas externas. Olhei por cima do ombro, e lá estava Armsmaster emergindo da nuvem de sombra oleosa. Ele deu meia-volta e girou para bater no Judas, derrubando o cão logo atrás dele, depois virou-se novamente para mim. Ao sair, a corrente foi puxada, trazendo a cabeça da marreta de volta ao topo da arma. Ele fez uma pausa.
Por quê? Só tinha uma razão para ele ficar ali, segurando a corrente assim: esperando que eu fizesse o movimento para perto dele.
Tentei adivinhar. Sabendo que o ataque viria mais rápido do que esperava, pelas duas vezes que tinha acontecido com a Tattletale, joguei-me ao chão do pátio.
A bola voou do final da arma dele, mas minha tentativa de desviar pouco adiantou. Ele puxou a corrente e mudou a trajetória da esfera, abrindo-a no formato de um gancho gigante. O objeto acertou meu lado, com os dentes passando sobre meus ombros e por baixo das axilas. Annoyed, fiz força pra levantar, mas quase escorreguei na corrente excedente que rolava ao meu redor, após o golpe. Senti a garra do gancho apertando meu peito.
No lado oposto do pátio, Armsmaster colocou os pés firmes e levantou a arma, começando a me puxar.
Não, não, não, não, não.
Eu NÃO ia cair assim.
Nem com Emma Barnes e o pai advogado sacana dela na multidão.
Comecei a reunir meus insetos de dentro, mas parei. Não fazia sentido trazê-los aqui, quando Armsmaster podia exterminar metade da tropa com aquele troço altamente equipado que transformara na sua arma. Passei meus insetos para dentro, em posição.
Ainda trêmula pelo baque, agradecida pela armadura que tinha incorporado ao traje, consegui segurar a corrente excedente abaixo de mim e enrolá-la na grade do pátio atrás de mim. Se Armsmaster quisese me pegar, teria que vir até mim. Não ia facilitar.
A corrente ficou tensa, e ele puxou duas vezes antes de decidir que era menos trabalhoso approachar do que causar mais danos ao patrimônio. Ele se aproximou a pé, parando só para soltar a corrente da grade. Depois, puxou a corrente para me puxar os dois ou três últimos passos até ele.
“Skitter. Achava que você seria mais rápida em se entregar.”
Ninguém mais escutava. “Qualquer que seja o meu lado, não quero ir pra cadeia. Olha, minha oferta ainda está de pé. Estou quase pegando o último detalhe para esses caras.”
“Você tinha dito que ia pegar isso há semanas”, respondeu.
“Não há outra maneira de você salvar essa situação, Armsmaster”, ergui-me o mais direito possível com a armadilha ao meu redor. É pesado, sabia? Tattletale fez questão de ir até o limite, até cair fora do combate, só pra mostrar o quanto a posição dele era importante pra ele. Tenho que usar isso. “A única maneira de você parecer competente é dizer que só consegui escapar porque você deixou. Que tudo isso aconteceu porque você deixou. Porque me deixar escapar significa que consegui as informações de quem está por trás dos Undersiders, de onde vem o dinheiro, os equipamentos, as informações. Depois, vocês limpam o estrago, e em uma semana, dois grupos de vilões estão fora de circulação. Não parece bom pra você?”
Armsmaster pensou por um instante.
“Não”, respondeu.
“Não?”
“Não espere que eu faça algo além de te prender imediatamente, junto com seus companheiros, por suas besteiras desta noite”, ele balançou a cabeça, “Um pássaro na mão, afinal...”
Ele deu uma sacudida, como se dissesse claramente quem era o verdadeiro pássaro.
Respirei fundo. “Você tinha razão, Armsmaster.”
“Claro”, falou ele, distraidamente, empurrando-me contra a grade com uma mão. Sua armadilha se reconfigurou naquilo que suspeitava ser o mesmo sistema que prendeu Lung às grades de aço inoxidável, lá na minha primeira noite de fantasia. É uma forma retangular, com duas faixas de metal em forma de U, com faíscas arcando ao redor, suas pontas brilhando quente o suficiente pra derreter qualquer superfície.
“Isso acabou desde o momento em que entramos na sala”, conclui.
Quase setecentos abelhões explodiram debaixo das minhas armaduras, todas se agarrando nele, picando e ferroando incessantemente, fluindo por baixo do visor, por dentro do capacete, no nariz, boca e ouvidos dele. Alguns até rastejaram por baixo do colarinho, indo para os ombros e o peito.
Atirei-me na ponta da lança dele, abraçando sua arma. Com uma mão ele me levantou e nos bateu no chão. Novamente, senti aqueles fios de eletricidade correrem por mim, por cima da dor de ter o estômago preso entre o bastão e o chão. Fiquei muito agradecida, na segunda vez esta noite, pelos painéis de armadura que coloquei no meu traje.
Repetiu o movimento, levantando-me de dois a três pés do chão, depois batendo a arma contra o chão e voltando a me derrubar. Após a segunda, tive que lutar para ficar debaixo do bastão, esperando o golpe seguinte, sabendo que ele aguentaria melhor o ataque dos abelhões do que eu.
Não poderia ter vindo a hora melhor para resgate.
Bitch, uma Tattletale inconsciente e Brutus foram os primeiros a atravessar o limite do pátio. Brutus bateu contra Armsmaster ao passar, derrubando o homem, e me dando a chance de levantar e tirar a lança dele. Segurei na arma e ele, distraído com a enxurrada de abelhões, nem percebeu.
Joguei a lança lá do muro do pátio e corri em direção à porta que dava de volta pra dentro. Agarrei a mão de Grue, que e Judas estavam passando, para que ele pudesse me fazer subir nas costas dele.
Enquanto pulávamos do limite, olhei para trás e vi Angelica e Regent vindo atrás. Grue estava apagando sua escuridão, para tornar ainda mais clara a bagunça que criamos, especialmente para quem ainda não tinha fugido. Nosso objetivo era envergonhar, afinal.
Por razões parecidas — talvez como uma forma de revidar maldosamente — deixei meus insetos no local. Estavam espalhados na parede à direita do pátio e no chão em frente à porta. Metade estavam formando dois grandes setas apontando para a porta, uma no chão e outra na parede, enquanto a outra metade escrevia em letras grandes ‘LETS GO’.
Trasnulei meus braços ao redor de Grue, apertando-o forte, tanto na expectativa de nossa aterrissagem num telhado próximo quanto num abraço de despedida.
Provavelmente, essa seria minha última missão com os Undersiders.